Incêndio de Fort McMurray Desliga 640.000 Barris por Dia da Produção das Areias Betuminosas

Incêndio de Fort McMurray Desliga 640.000 Barris por Dia da Produção das Areias Betuminosas
Cercados pelo fogo da negação, o incêndio de Fort McMurray atinge Anzac e desliga 640.000 barris por dia na produção das areias betuminosas

Uma simples questão de facto, um facto que muitos que investiram numa indústria de petróleo destrutiva não querem enfrentam agora, é que um fogo cuja extrema intensidade para tão cedo na temporada foi impulsionada pela mudança climática causada pelo homem, está agora a fazer o que o Canadá não fazia. Ele está a encerrar a produção de petróleo nas areias betuminosas – um dos combustíveis mais elevados em carbono no planeta Terra.

Aumentos na frequência de incêndios devido às alterações climáticas

(Aumentos na frequência de incêndios devido às alterações climáticas, como previsto por execuções de modelos computorizados, estão ilustrados no mapa acima. De acordo com um relatório na WeatherUnderground – “Um grande aumento em incêndios em grande parte do mundo é esperado à medida que avançamos através deste século. Usando modelos de incêndio conduzidos pelos resultados de dezasseis modelos climáticos utilizados no relatório do IPCC de 2007, os pesquisadores descobriram que 38% do planeta deve ver um aumento na atividade de incêndios [devido à mudança climática] durante os próximos 30 anos. Este número aumenta para 62% lá pelo final do século“. Fonte da imagem: Mudanças Climáticas e Disrupções na Atividade Global de Incêndios).

Existem outros factos que precisam igualmente de ser encarados. Um deles é o fato de que os moradores de Fort McMurray tiveram as suas vidas postas em risco por um novo tipo de fogo que é agora muito mais provável de ocorrer. Um tipo de evento que tenderá a emergir com uma frequência e intensidade crescente. Um que está a aumentar o risco de danos para aqueles que vivem em todo o Canadá, em todo o Ártico e em grande parte do mundo.

É uma verdade difícil de enfrentar. Uma que muitos políticos canadianos, que confrontam a impossível tarefa de equilibrar as demandas de interesses económicos à base de petróleo com a muito clara necessidade de mitigar a mudança climática, estão a ter dificuldade em enfrentar. Mas uma que tem que ser seriamente observada e não ignorada por qualquer pessoa preocupada com a segurança dos que vivem em Fort McMurray ou em qualquer outro lugar. Pois a menos que os gases de efeito estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis, como as areias betuminosas, parem de atingir a nossa atmosfera, então este tipo de eventos só vão continuar a piorar.

Nós já estamos a começar a ver terríveis eventos de incêndios do tipo que nunca antes experimentámos a emergirem no Ártico e em seções do norte da América do Norte. E com o mundo agora 1 C mais quente que as médias de 1880, grandes incêndios no Ártico são agora dez vezes mais prováveis ​​de ocorrer. No Alasca – uma região que partilha as tendências do clima com o Canadá – a duração da época de incêndios cresceu em 40 por cento desde 1950.

Em todo o mundo, a história é a mesma. O aquecimento da nossa atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis está a aumentar a frequência e intensidade de incêndios. Um ponto no qual até mesmo as projeções conservadoras do IPCC têm vindo a tentar impressionar os decisores políticos desde o início de 1990 (ver gráfico acima). E, numa parte significativa, esse perigo crescente tem recebido contribuição dos combustíveis de areias betuminosas que a indústria de energia de Fort McMurray foi projetada para extrair.

Aumento na Frequência de incêndios no Ártico ao longo dos anos

(Um estudo realizado pela Climate Central no ano passado descobriu que o aquecimento no Alasca resultou num prolongamento da época de incêndios em 40 por cento e que o ritmo de geração de grandes incêndios havia aumentado em dez vezes [x10]. É importante notar que o clima e as folhagens em Alberta, Colúmbia Britânica, e nos Territórios do Noroeste são muito semelhantes aos do Alasca. E o aumentando da intensidade e frequência dos incêndios devido ao aquecimento no Alasca também está igualmente a impactar o regime de incêndios canadiano. Fonte da imagem: The Age of Alaskan Wildfires.)

Apesar das escolhas políticas arriscadas e prejudiciais conduzidas pela indústria de combustíveis fósseis no Canadá, não devíamos ficar indiferentes à perda e deslocamento que muitos na zona de produção de areias betuminosas estão agora a passar. É uma tragédia. Puro e simples. Milhares de pessoas perderam as suas casas e meios de subsistência. Mas não devemos deixar-nos cegar quanto à realidade da situação simplesmente devido ao facto de ser uma comunidade de petróleo, desta vez, quem está a sofrer as devastações das condições climáticas extremas. Pois milhares de canadianos estão agora a juntar-se a um conjunto cada vez maior de refugiados da mudança climática. Vítimas e, alguns deles, contribuintes de a uma catástrofe nascida da húbris e cegueira de uma indústria do petróleo. Um evento que foca uma luz sobre os riscos contínuos e crescentes colocados pela extração de areias de alcatrão e sobre a vulnerabilidade dos fundamentos económicos desse combustível prejudicial para as forças climáticas que está agora a começar a soltar.

Fogo em Rápida Expansão Força Aeroporto e a Comunidade Anzac, a 31 Milhas de Distância de Fort McMurray, a Evacuar

Pirocúmulo no incêndio de Fort McMurray, Alberta, Canadá

(Pirocúmulo – uma nuvem de tempestade formando-se a partir da corrente ascendente de calor de um fogo intenso. Uma palavra que vai começar a entrar em uso comum à medida que as alterações climáticas forçadas pelos humanos tornam os incêndios poderosos cada vez mais comuns. Aqui vemos uma pirocúmulo maciça a aproximar-se de Anzac e do Aeroporto de Fort McMurray na quarta-feira. Fonte da imagem: Twitter Feed de Sean Amato).

Ontem, enquanto bombeiros correram para proteger o centro da cidade de Fort McMurray e arredores a norte, um grande incêndio ferveu e cresceu sitiando-se na cidade. Retido no seu progresso rumo ao norte em bairros ao longo do rio Athabasca, em direção à área infértil de extração de areias betuminosas, e para a estação de tratamento das águas por esforços do combate ao incêndio, o fogo inchou enquanto recuava. Virando-se para o sul e leste, começou a invadir o aeroporto da cidade e até mesmo uma de suas ramificações explodiu em direção ao subúrbio bem povoado de Anzac, 30 milhas a sul.

Lá, um centro de operações de emergência tinha acabado de se instalar após ter sido forçado a sair da sua localização na cidade quando uma chuva de brasas expulsa da nuvem pirocúmulo iminente sobre a cidade lhe colocava um tecto ardente. O novo centro de operações estava bem longe do caminho do incêndio previsto para ir em direção ao norte. E os oficiais tinham alguma razão para acreditar que o centro recém-movido seria seguro. Um centro de evacuação a sul – abrigando centenas de pessoas agora desabrigadas pelo fogo – foi também montado na área.

Incêndio de Fort McMurray invade Anzac sob uma imponente pirocúmulo

(Incêndio de Fort McMurray invade Anzac sob uma imponente pirocúmulo na quarta-feira. Fonte da imagem: Twitter Feed Emily Metrz).

Na quarta-feira à tarde, o aeroporto, a comunidade de Anzac, o centro de operações de emergência recém-movido, e o centro de evacuação, todos caíram sob a sombra de um pirocúmulo a inchar. Uma grande tempestade de fumo, cinzas e brasas ardentes levantada pelo calor do fogo por baixo. Todos nesta área foram forçados a evacuar (um bom número deles pela segunda vez em dois dias) enquanto a enorme nuvem crescia e os fogos avançavam.

Quando a noite caiu, o fumo envolvia o aeroporto – tapando-o de vista. E muitos bombeiros já sabiam que a comunidade de Anzac estaria perdida. Sean Amato twittou esta mensagem quarta-feira enquanto o fogo avançava – “Bombeiro [diz]:” Anzac está f **dida. Não podemos lutar contra isso. Não temos bombardeiros. Saiam agora.”

Incêndio de Fort McMurray, Alberta, Canadá, num mapa de satelite

(Mapa térmico de incêndio fornecido pela NASA na quinta-feira revela a extensão extraordinária dos fogos e cicatrizes a 4 de Maio – abrangendo cerca de 10.000 hectares. A 5 de Maio, esta zona tinha ampliado vastamente para 85.000 hectares. Fonte da imagem: Observatório da Terra da NASA).

Na quinta-feira, uma enorme área que se estende desde o aeroporto até Anzac tinha sido abandonada ao fogo. Adicionando grandemente aos 10.000 hectares, o enorme incêndio foi estimado ter queimado, ao meio-dia de quarta-feira, pela expansão do fogo em mais de 8 vezes, para 85.000 hectares – uma área de seis vezes o tamanho de San Francisco ou mais de 300 milhas quadradas.

Produção das Areias Betuminosas Detida

A este ponto, os incêndios haviam deslocado tantos trabalhadores e aleijado tanta infra-estrutura que a produção das areias betuminosas na região acabou por parar. Na quinta-feira manhã cedo, mais de 640.000 barris por dia do petróleo sintético e climatologicamente volátil haviam parado. Representando mais de 16 por cento da produção de petróleo bruto do Canadá, os cortes forçados pelo incêndio foram significativos o suficiente para impulsionar os preços do petróleo nos mercados globais tão alto quanto 46 dólares por barril nas negociações de hoje cedo. Mais encerramentos de produção eram prováveis em outros grandes extratores de areias betuminosas numa luta nos cortes o fluxo do petróleo já que o incêndio de Fort McMurray se tornou cada vez menos previsível. Perto de Anzac, a extensão para sul dos incêndios ameaçava uma instalação de produção de areias betuminosas Conoco Philips de 30.000 barris por dia na região de Surmont – forçando uma paragem na produção e a evacuação de todos os trabalhadores das areias betuminosas.

Incêndio em Fort McMurray aproxima-se das areias betuminosas

(A imagem do satélite LANCE-MODIS do incêndio de Fort McMurray na quinta-feira, 5 de Maio, mostra o fogo a expandir-se em direção às instalações de extração de areias betuminosas. Para referência, as operações de areias betuminosas são os poços de minas claramente visíveis como áreas carecas castanhas na imagem acima. A maior parte de Fort McMurray está coberta pela pluma de fumo. O bordo inferior da imagem são 60 milhas. Fonte da imagem: LANCE-MODIS).

No final da tarde de quinta-feira, a passagem do satélite MODIS revelou um grande incêndio cuja extensão norte parece ter atingido entre 3 a 5 quilómetros dentro da parte mais a sul das instalações de areias betuminosas. A borda ocidental do incêndio de Fort McMurray expande-se apresentando uma frente de 10 a 15 quilómetros aproximando-se para norte e oeste. As bordas sul e leste do incêndio permanecem obscurecidas pelo que é agora uma grande nuvem de fumo. Uma que é provavelmente agora visível nos céus de estados do norte e centro dos EUA.

Uma Longa Batalha Pela Frente enquanto as Temperaturas estão Previstas para Permanecerem Muito Mais Quentes do que o Normal

Uma mudança do vento para norte, juntamente com o afluxo de temperaturas mais baixas na quinta-feira pode ajudar os bombeiros a ganharem algum progresso. As condições sobre Fort McMurray hoje estavam nublado com ventos de 10 a 15 mph de noroeste e temperaturas em torno de 64 (F). Contudo, pouca ou nenhuma chuva caiu sobre a área já que uma frente passou esta manhã. Enquanto isso, espera-se uma subida das leituras do termómetro a meio dos 80 [26C] de novo no sábado, com condições muito secas a tomarem conta.

Nesta altura, é apenas Maio – não Julho, quando tais condições meteorológicas extremas de incêndios normalmente seriam possíveis. As temperaturas médias para Fort McMurray tendem para os 50 e muitos ou 60 e poucos nesta época do ano. Então, até as leituras de hoje de 64 F são mais quentes do que o habitual, com previsão de escalada das temperaturas para 20-25 F acima da média novamente no sábado. Dada esta tendência, e dado o facto de que ela vai ficar ainda mais quente e seco nos próximos meses, parece que Fort McMurray – uma cidade nas garras das consequências climáticas difíceis que ajudou a criar – tem garantida uma longa e dura luta.

Este artigo foi primeiramente publicado em AquecimentoGlobal.info, um site destinado a agregar a mais recente ciência sobre as alterações climáticas e o consequente aquecimento global. Traduzido do original
Besieged by the Fires of Denial — Fort McMurray Blaze Grows to Overwhelm Anzac, Shuts off 640,000 Barrels per Day of Tar Sands Production
, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 5 de Maio de 2016.

Outros blogues com publicações recentes sobre Alterações Climáticas em Português:

Anomalia das temperaturas causam incêndios no Canadá e América do Norte

Perigo de Incêndios Florestais Aumenta

em aquecimentoglobal.info/

Que se passa na ciência climática, enquanto os outros olham para a COP21 Paris?

Que se passa na ciência climática, enquanto os outros olham para a COP21 Paris?

Alterações climáticas enquanto decorre a COP21 Paris

Se quisermos ter uma visão mesmo completa da ciência, da política e do conhecimento cultural influenciado pelos média, no que diz respeito ao Aquecimento Global, temos que incluir também as fontes que estão a ser ignoradas pelo status quo por se desviarem muito dos seus interesses. Vou resumir algumas fontes, para que vocês possam ficar com uma visão bem clara daquilo que se passa em diversas frentes, quando estamos a meio da conferência do clima de Paris.

Começando por aquilo que já toda a gente sabe, ou está exposta, em direcção ao que muito pouca gente sabe. Quando se abre uma janela privada no nosso browser, para pesquisarmos por “Alterações Climáticas” no Google sem quaisquer influências do nosso historial na Internet sobre os resultados, é isto que encontramos: websites governamentais, como a Agência Portuguesa do Ambiente, a Agência Europeia do Ambiente, e a WWF (que além de ser internacional, é uma ONG conhecida ultimamente pela quantidade de dinheiro que recebe e as suas ligações às elites Monárquicas) com uma ciência básica das alterações climáticas, os objetivos de mitigação até 2050 para se evitar chegar aos 2℃ (limite máximo sugerido de variação da temperatura média do planeta desde a revolução industrial para que a humanidade não entre numa calamidade), e as suas consequências nefastas lá por volta de 2100. Também se encontra a página da Wikipédia sobre Alterações Climáticas (climate change), que apenas fala em gases de efeito de estufa no último parágrafo. No topo dessa página da wikipédia encontra-se um link para a página Aquecimento Global. Essa sim pode ser considerada uma fonte aceitável para se compreender, de forma geral, o que são alterações climáticas e em que situação estamos. Mesmo assim, incompleta. Se não estivesse incompleta, não me daria ao trabalho de escrever mais nesta publicação para além de vos indicar esse link. Mas como há mais, e muda bem a figura das coisas, aqui vai.

A GreenPeace está a lançar campanhas para “escreverem” (já está escrita, é só preencherem os seus dados – inscreverem-se – e clicar “send message”) cartas ao Presidente Obama a exigir-lhe que proteja o Ártico de futuras explorações de petróleo. Como se impedir que se perfurasse o Ártico por petróleo fosse impedir que o gelo derretesse todo pela primeira vez no ano seguinte ou no máximo até 2020. Como se o nosso congelador estivesse desligado e a derreter, para sempre, e se fizesse uma campanha para proteger os bifes de serem comidos já ao jantar, como se isso fosse “salvar” a casa da fome prolongada que está para vir. Como a GreenPeace, encontramos outras ONGs com focos similares ou que ignoram completamente a parede contra a qual a humanidade acelera. Save the Arctic aproveita e segue a febre da Marcha pelo Clima, mas quando se vê o foco do seu activismo, parece que ainda estão a tentar salvar o urso polar; completamente alienados de que o gelo no Ártico vai desaparecer em breve e independentemente daquilo que se faça, ou simplesmente percebendo que não se consegue continuar a angariar fundos enfrentando essa realidade? Não sei, mas de modo similar, a Ocean Conservancy parece não estar nem aí para a acidificação dos oceanos que está em vias de tornar alguns oceanos inóspitos à vida de organismos essenciais na cadeia alimentar, já em 2030.

Será que aquelas iniciativas ativistas diretamente focadas nas alterações climáticas estão a ter um foco mais relevante? A Climate Reality celebra que o estado de Alberta, no Canadá, capital da extração de petróleo das areias betuminosas, ‘planeia‘ impor uma taxa de carbono. Planeia! Taxa de carbono! para os milionários pagarem para continuarem a levar a humanidade em direção à extinção?! Num país que proibiu os cientistas de falarem com os média sobre alterações climáticas! O que é que estas iniciativas ativistas estão a celebrar? Será que o papel delas é relevante? Talvez, sim, seja relevante para nos distrair e perpetuar esta cultura, ao publicar sobre ela mas sem mudanças significativas culturais e no modo de pensar.

Climate Progress, uma das mais conceituadas fontes de notícias sobre alterações climáticas, publica: “Prova científica de que a Exxon e os Kochs (ricaços dos combustíveis fósseis) distorceram o entendimento público sobre alterações climáticas“. E depois?! Fazer queixinhas e apontar quem tem a culpa tem o mesmo peso que publicar sobre a ciência, as soluções e a urgência em aplicá-las? Ou este outro exemplo de publicação: “Companhias de Fracking (exploração de gás natural) estão cada vez piores no revelar das substâncias que usam.” Noam Chomsky explica muito bem o impacto que este tipo de notícias tem em nós: mantém um debate muito vivo, mas dentro de certos limites de debate. Ou seja, torna-se mais uma distração que uma informação, já que o fracking, com ou sem substâncias perigosas para o ambiente e a saúde, trata de captar um combustível fóssil, com emissões de CO2. Daaah! E esta “Metano tem estado a derramar deste local de gás natural durante um mês“. Eles ignoram propositadamente a informação científica regular sobre as gigatoneladas de Metano existentes no fundo do Mar da Sibéria, no Oceano Ártico, que se liberta diariamente com o aumento da temperatura do mar e em quantidades cada vez maiores… como sendo a tal ciência do cenário negro radical… para publicarem isto?! Bem, vamos passar à política; se bem que isto até agora parecia-se mais com política que ativismo.

Será que o Obama, e os restantes presidentes de países influentes, estão mesmo dedicados a combater as alterações climáticas? A única ONG que parece estar um pouco mais próxima da realidade e do foco necessário, mas ainda assim a ignorar alguma ciência climática por ser “radical” demais, é a 350.org (assim chamada por outrora lutar por manter os níveis de dióxido de carbono atmosférico abaixo do valor crítico de 350ppm; alguns anos depois, exatamente este fim de semana, foi o último momento em que a humanidade verá valores de CO2 atmosférico abaixo de 400ppm) que me mostra o primeiro sinal de esperança de entre todas as notícias até agora, com esta publicação e citação da Naomi Klein “E se, ao invés de ser empurrada para o lado em nome da guerra, a acção climática tomasse o centro do palco como a melhor esperança do planeta para a paz?”. Como sabemos, os lideres mundiais mais influentes estão todos focados em guerra, a indústria que mais dinheiro envolve e que queima combustíveis fósseis todos os dias, com vista ao controlo dos combustíveis fósseis mundiais. Não. O teatro deles de preocupação com alterações climáticas é apenas aquele que é suficiente para manter a opinião geral do público do seu lado, enquanto continuam com as suas agendas de domínio mundial. Vamos a números?

Segundo o site da Union of Concerned Scientists [União de Cientistas Preocupados], os países com maiores emissões de CO2 são: #1 China, #2 Estados Unidos, #3 Rússia, #4 Índia, #5 Japão. O primeiro país europeu vem em #6, Alemanha, mas se juntarmos a Europa como um bolo só, passamos logo para terceiros com mais emissões de gases de efeito de estufa. Mas estes países têm números muito diferentes de seres humanos lá a viver. Se virmos per capita, ou seja, por cada ser humano que lá vive, os valores são bem diferentes. Aí, os Estados Unidos, Canadá, Austrália e Arábia Saudita emitem (consomem e poluem) cada um deles, mais do dobro de qualquer um dos outros países, excepto da Rússia, que fica a dois terços das emissões desses países mais poluentes.

O que é que estes países estão a fazer para reduzir as emissões de CO2 e combater o aquecimento global ao procurar mitigar o seu impacto nas alterações climáticas? O que é que os Estados Unidos estão a fazer?

O maior senhor da guerra de todos os tempos, também presidente do segundo país com maiores emissões de CO2 do mundo, apesar de não estar nem perto de ser o país com mais população, Obama, faz o seu papel de político: conseguir que 200 nações estejam de acordo não será fácil, mas estou confiante”…” acho, de facto, que vamos resolver isto.

O Bill Gates, o homem mais rico do mundo, criou um fundo de 2 mil milhões de dólares para pesquisa e desenvolvimento de energia renovável. Quando a sua riqueza é de +70 mil milhões porque é que aplica apenas 2 mil milhões e não o faz na instalação de energias renováveis mas apenas na pesquisa?

Esperem. Eu ia já todo acelerado percorrer um a um o que os países com maiores taxas de emissões de CO2 estão a fazer, e o que estão a dizer os seus presidentes e pessoas mais influentes, mas, não é esse o melhor modelo de análise para se perceber o que se passa. Este artigo, do qual traduzo alguns parágrafos, pegou no assunto com um modelo e resumo bem mais representativo da realidade humana neste planeta.

Porque é que as Conversações de Paris Estão Condenadas a Falhar, como Todas as Outras.

Mesmo que o mundo celebre um acordo climático a 11 de dezembro, o processo vai ter que ser visto como um falhanço. Deixem-me explicar porquê.

A razão de base é que uma distribuição desigual de emissões de carbono nem está na agenda. A responsabilidade histórica do Ocidente não está na mesa, nem está o método de responsabilidade que olha para as emissões que um país consome em vez das emissões que produz. Ao invés, o que está na mesa são uma extensão de alguns mecanismos e outros novos que permitirão aos países ricos do ocidente terceirizarem os seus cortes nas emissões de modo a pintarem-se de verde.

Quando os dados são incluídos, 2015 é provavelmente o ano mais quente dos registos e acabámos de chegar a um aumento de 1℃ de temperatura desde a revolução industrial,meio caminho para os 2℃ amplamente acordados como sendo o limite de aquecimento global máximo seguro. É a subida de temperatura de superfície mais rápida do registo geológico conhecido no mundo. Estamos a entrar em “território não mapeado”.

Os perigos do aquecimento global têm sido conhecidos – até pelos executivos de companhias petrolíferas – desde pelo menos o início dos anos 80. Contudo, apesar dos 25 anos de conversas climáticas lideradas pela ONU, o mundo está a queimar mais combustíveis fósseis que nunca.

Isto não é simplesmente da culpa das grandes economias emergentes como a China, Índia ou Brasil. Em vez disso, aquilo com que estamos a lidar é o fracasso fundamental do capitalismo neoliberal, o sistema económico dominante no mundo, a confrontar a sua fome por crescimento exponencial o qual apenas é possível pela sua densidade energética excecional por combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás.”

Mas no meio disto tudo, há um indivíduo, no mínimo interessante, no foco da economia climática e que vale a pena partilhar. Já conhecem o Jeremy Rifkin? Conselheiro para a economia da chanceler alemã e chamado pelo governo chinês assim que souberam do seu famoso best-seller “A Terceira Revolução Industrial”, tem uma apresentação muito recente no youtube que é verdadeiramente elucidativa e inspiradora. Só vendo. Pena que não está legendada em Português. Têm aqui uma entrevista ao Jeremy Rifkin, esta sim em Português que vos dará uma bom início para conhecê-lo e perceber porque é uma figura de referência (ou que pelo menos devia ser) no tópico das alterações climáticas.

Mais recente ainda: Quão fácil é revertermos todas as nossas fontes energéticas para renováveis? Um estudo por Jacobsson, publicado esta semana, desenhou um mapa com o percurso economicamente e tecnologicamente viável para todos os países numa transição global urgente para 100% energias renováveis até 2050. O aquecimento global seria fácil de resolver, não fosse a política e o sistema económico distorcido da realidade.

E é isso o que nos resta para completar esta publicação: A ciência climática. Esta é a parte mais interessante. Sem rodeios nem distorções políticas, opiniões ou debates, apenas ciência, o que é que se passa? A fonte de informação mais clara e completa de âmbito científico não se encontra em sites institucionais governamentais, internacionais, universitários ou de ONGs. As melhores fontes que encontrei são, interessantemente, blogues de cientistas ou grupos de cientistas que estão a ser ignorados pelo status quo e cultura vigente, que se tornaram “activistas online” de modo a partilharem os estudos e a explicação da ciência climática que melhor descrevem a urgência da situação. A ciência climática nunca foi tão interessante como quando descobri estes blogues.

Sam Carana é certamente quem nos traz as melhores explicações da ciência climática, no blogue Notícias do Ártico [Arctic News], e também a figura mais enigmática. Porquê? Porque ninguém ainda viu a sua cara. Mas o grupo de cientistas que se acredita estarem por detrás daquele avatar, e que podem ser encontrados e também publicam no blogue onde Sam Carana publica, são famosos e respeitados na ciência climática no seu trabalho. Alguns artigos de Sam Carana e não só encontram-se traduzidos no blogue Alterações Climáticas, em Português. A mais recente publicação no Arctic News foi feita por Abert Kalio e é sobre o recorde mais baixo para esta altura do ano tanto da área como da espessura do gelo do mar do Ártico, onde as temperaturas apresentam anomalias de +20℃ que aquilo que deveria ser a temperatura encontrada naquela zona do globo para este mês.

Robertscribbler é outro blogueiro incansável na partilha da mais recente ciência climática. Os eventos naturais resultantes das alterações climáticas, as implicações para a humanidade e a urgência da resposta desta a esses eventos é suportada com os mais recentes estudos, imagens de satélite, gráficos e o que mais, o que torna esta fonte outra das mais interessantes para quem quer compreender a ciência climática desde o todo planetário até à sua relação com os eventos locais. No seu mais recente artigo, “Conferência do Clima de Paris ‘Nos Limites do Suicídio’, os comprometimentos [para resolver a crise climática] não estão nem próximos de evitarem chegarmos aos +2℃.” diz o seguinte: “O problema, tal como se apresenta, é o grande fracasso em comunicar a presente severidade da crise de aquecimento atmosférico global. Parte deste fracasso envolve a incapacidade ou falta de vontade em traduzir as descobertas sobre a corrente sensibilidade climática do sistema terrestre numa linguagem relevante para a presente política global, e em seguida reportá-la amplamente. Se os média mainstream estivessem em cima da bola, eles estariam a reportar as descobertas do relatório anual da UNEP, Emissions Gap Report. Estariam também a prestar mais atenção aos discursos recentes do Dr. Kevin Anderson que endereçaram esta questão crítica.”

Uma das figuras mais famosas para aqueles que pesquisam e vasculham a ciência climática minimamente, é Guy McPherson. Ele é talvez a figura mais controversa das Alterações Climáticas, ainda mais ignorado que os negadores do clima, (ou negadores do aquecimento global, seja lá como os quisermos chamar). Porquê? Porque este professor Emeritus da Universidade do Arizona, abandonou a carreira para se dedicar a palestrar e dar entrevistas sobre como a ciência climática aponta para que a humanidade já não se veja livre de ser extinta em breve neste planeta. Quão breve? Por volta de 2040. Que querem que vos diga…? Não deixa de ser uma previsão futura, mas… mesmo ignorando a evidência diária da temperatura e das emissões de CO2, que em vez de serem reduzidas continuam a aumentar, por países que gastam mais em defesa – ou guerra, para sermos francos – do que em se juntarem para corrigirem este problema da família humana, de uma tal simplicidade tecnológica para uma espécie que leva naves a plutão… olhem para a ciência climática que Guy McPherson referencia para apoiar a sua previsão, antes de mais nada. Eu olhei. Crenças e bolas de cristal à parte, não é preciso ser bruxo para perceber que vamos nessa direção. E a ciência climática é super interessante. A vida fixou carbono ao longo de imensos anos. E nós agora libertámos mais carbono na atmosfera do que os registos geológicos planetários indicam alguma vez ter acontecido na Terra. E chega a um ponto que o planeta faz isso por nós, nem precisamos continuar a queimar combustíveis fósseis nem criar gado. O CO2 já não vem só do petróleo e carvão mas vem dos fogos florestais e do descongelar da Permafrost, e o metano já não vem da digestão das vacas mas sim do fundo do mar do Ártico quando aquece. Guy McPherson tem uma atualização regular do que se passa no tópico das Mudanças Climáticas, e já tem pelo menos um vídeo de uma entrevista pela RT News também legendada em Português, intitulada no youtube como “Cientistas prevêem extinção da humanidade até 2040” e uma palestra intitulada “Aquecimento Global e Extinção da Espécie Humana“.

O que anda este homem a fazer? Apenas a assustar o mundo com maluqueiras do fim do mundo? Não propriamente. Ele apenas cita outros cientistas que também estão a ser ignorados. Por exemplo, o que é que Guy McPherson adicionou esta semana na sua atualização regular do ensaio sobre alterações climáticas? “A análise de Wasdell de Setembro 2015 inclui várias conclusões merecedoras de nota: (1) ‘Estimativas computacionais correntes da sensibilidade do clima revelam-se perigosamente subestimadas’ revelando (2) ‘uma amplificação em oito vezes do forçamento por CO2 (em contraste com a amplificação 3 vezes maior prevista pelos modelos climáticos computacionais do IPCC (Painel Internacional para as Alterações Climáticas)’, (3) ‘o limite de temperatura alvo de 2°C decidido é muito elevado’ (enfase no original), e (4) ‘as alterações antropogénicas estão a acontecer pelo menos 100 vezes mais rápido do que em qualquer altura do registo paleontológico’ O ponto final do relatório: ‘Não há excedente de carbono a consumir. Já foi massivamente gastoem demasia, mesmo para o objetivo dos 2°C.” Ou: “O Oceano do Hemisfério Sul está a acidificar a uma tal taxa devido ao aumento das emissões de dióxido de carbono que amplas regiões poderão tornar-se inóspitas para a sobrevivência de organismos chave na cadeia alimentar, tão cedo como 2030, segundo um estudo de 2 de Novembro de 2015 na edição online de Nature Climate Change.”

Se depois disto ainda estão a ler, e consideram dar uma chance e espreitar a ciência, poderão certamente achar tão interessante e intrigante como a colaboração entre a equipa sueca e a equipa russa, liderada por Natalia Shakhova, que percorreu o mar do Ártico e observou e registou, “no terreno”, a libertação dos clatratos de metano do fundo do mar, foi simplesmente ignorada pela Royal Society e criticada pelo diretor do projeto NASA Goddard, que deram preferência à apresentação dos modelos climáticos por computador da NASA, ou seja, teóricos, e que não incluíam a libertação dos hidratos de metano nos seus modelos.

Não fica por aí o “bando de cientistas maluquinhos”. O especialista em paleontologia do clima Paul Beckwith é incansável na publicação de actualizações sobre as alterações climáticas, fazendo até vídeos com gatos no youtube para chamar a nossa atenção. Uma curta atualização da situação climática por Paul Beckwith pode ser encontrada traduzida para Português. Paul Beckwith filmou e publicou recentemente a intervenção de James Hansen no COP21 Paris “Injustiça Climática e Desonestidade Governamental”.

O Professor Peter Wadhams, de Física dos Oceanos da Universidade de Cambridge, perito em gelo do Ártico e a destabilização do metano e permafrost, que dada a sua idade e estatuto não tem nada a temer, é outro cientista traduzido para Português que aconselho a ver. O Artic Methane Emergency Group, ou grupo de emergência para o metano no Ártico, liderado por Peter Wadhams, publicou recentemente um artigo do Dailymail.co.uk: “Colinas enormes de metano encontradas no fundo do mar Ártico: Pingos subaquáticos podem revelar pistas preocupantes sobre alterações climáticas.” Resumindo a publicação, estes pingos vão até 1000 metros de largura e 10 metros de altura; formam-se ao longo do leito do mar no mar South Kara ao pé da Sibéria; especialistas acreditam que resultam do derretimento da permafrost; estes “pingos” podem colocar um perigo se rebentarem, libertando quantidades enormes de gás.”

Outro cientista muito activo no ativismo online é Jasson Box, da Dinamarca, perito no gelo da Gronelândia. Infelizmente, não encontrei nada dele traduzido para português.

Uma pesquisa no Google em Português, e mesmo em Inglês, revela bem porquê a humanidade ainda não só não resolveu este problema – mesmo após mais de 20 anos de James Hansen ter alertado os média do “ponto de não retorno” e ter sido proibido de falar com jornalistas pela NASA e a Casa Branca – como até se enterrou ainda mais. Não há nada que se encontre na pesquisa por termos comuns no Google ou no Youtube que possa mudar esta cultura retrógrada e ecocida. Ao invés, apenas se encontra informação institucional, tímida, obediente, que perpetua o status quo. É um desafio muito interessante procurar mudar esta cultura humana, este movimento em direção ao ecocídio.

Fica aqui a proposta de se organizar uma colaboração voluntária de traduções e publicações online em Português sobre a ciência da Mudança climática e as soluções e iniciativas que podem mudar a cultura geral se forem partilhadas e se tornarem do conhecimento geral. Basta comentar a esta publicação, quem estiver interessado.

Grato por terem lido até ao fim,
Que vivam a cada momento, com toda a gratidão e compaixão de quem enriquece a vida uns aos outros.