Zika Vírus e a Nova Distopia do Clima – O Efeito de Estufa Humano como Multiplicador de Doenças

Zika Vírus e a Nova Distopia do Clima – O Efeito de Estufa Humano como Multiplicador de Doenças

Sugerimos a leitura de “Zika Vírus e a Nova Distopia do Clima – O Efeito de Estufa Humano como Multiplicador de Doenças” no site Aquecimento Global: A Mais Recente Ciência Climática
 

A partir de hoje, as autoridades no Brasil, Colômbia, Jamaica, El Salvador e Venezuela, exortavam as mulheres para evitarem ficarem grávidas … É impensável. Ou melhor, é algo saído de uma história de ficção científica, o cerne absoluto de um futuro distópico.

– Bill McKibben, num comunicado recente sobre o aquecimento global e o vírus Zika que é agora uma pandemia.
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Existe uma infinidade de doenças por aí fora. Doenças que não conhecemos. Doenças trancadas em cantos do mundo rarefeitos e distantes. Doenças que operam em ambientes de selva de nichos pequenos. Doenças que vivem em apenas sistemas de cavernas ou numa única espécie. Doenças que foram trancadas há milhões de anos atrás no gelo que descongela agora. Doenças que, se lhes for dado um vetor – ou um meio de viajarem para fora dos seus pequenos nichos orgânicos ou ambientais rarefeitos – podem causar danos incalculáveis em amplas extensões do globo.

Países com transmissão do vírus zika

Os países com transmissão ativa do Zika Vírus reportada. Até recentemente, as crises de Zika estavam isoladas à África Central e Polinésia Francesa. Agora, o vírus é uma pandemia global com as autoridades da Organização Mundial de Saúde preocupada que as infeções possam chegar aos 4 milhões. Fonte da imagem: O CDC.

Tal foi o caso com o outrora humilde vírus Zika. Descoberto em 1947 na África Central, a doença primeiro só existia em macacos. O vírus levou 7 anos para dar o salto para os humanos em 1954. Mas, ao início, os sintomas eram apenas ligeiros e para a maior parte da história da doença era considerado uma forma menos prejudicial do vírus Dengue – ao qual está estreitamente relacionado. O vírus, ao início, aparentava apenas resultar em febre, dores de cabeça, erupção cutânea e dor nas costas – se quaisquer sintomas aparecessem de todo. Iria levar muito mais tempo para os devastadores e terríveis efeitos posteriores, de um vírus que aparentava num primeiro momento ser inofensivo, começarem a aparecer.

Até 2007, quando o vírus começou a crescer até aos seus níveis de pandemia atuais, estava na sua maioria isolado à África Central e a uma região da Polinésia Francesa no Pacífico. Ambas as áreas estão entre as mais calorosas e mais chuvosas do mundo. Ambas caracterizadas por populações muito grandes e persistentes dos tipos de mosquitos mais adequados para a transmissão desta doença agora amplamente temida.

Uma Questão da Extensão Crescente dos Vetores de Doenças

Em linguagem de epidemiologia, um vetor é um transportador da doença. No caso de Zika, o transportador primário é o mosquito. No total, sete espécies da variedade de mosquitos Aedes são conhecidos por transportar Zika.

Em condições climáticas normais, o alcance desses insetos transmissores de doenças tende a permanecer bastante estável. Mas não é esse o caso no mundo atual. Desde 1880, o mundo tem aquecido e as extensões de mosquitos vetores de doença têm-se expandindo. Sob o regime atual de aumento da temperatura de 1°C ao longo dos últimos 136 anos, o Aedes Aegypti – um dos principais transportadores do vírus Zika – expandiu o seu habitat para fora dos trópicos e em latitudes cada vez mais elevadas.

Aedes Aegypti Distribuição Global

Distribuição global do Aedes Aegypti em 2015 – vermelho indica maior frequência, azul indica frequência zero. O Aedes Aegypti é um vetor de doenças para vírus como o Dengue e o Zika. À medida que o mundo aqueceu, o seu habitat tem vindo a expandir-se para Latitudes cada vez mais elevadas. Fonte da imagem: Distribuição do Aedes Aegypti

Mas não só a extensão global desses portadores da doença está em expansão como também há uma persistência nas regiões que eles ocupavam anteriormente. Regiões que poderão ter assistido apenas a uma ou duas semanas por ano nas quais mosquitos fêmea, infectados com Zika, estavam ativos, podem agora experienciar um ou dois meses de exposição. E regiões em que o mosquito estava ativo durante apenas alguns meses poderão agora ver populações ativas transmissoras da doença durante metade do ano ou mais.

É essa duração crescente e expansividade da exposição ao vetor de doença que é um dos impactos epidemiológicos mais perigosos da mudança climática. A alteração climática não apenas possibilita o movimento de doenças provenientes do isolamento anterior em reservatórios remotos. Ela também permite uma amplitude cada vez maior de transporte, já que as áreas em que as espécies portadores de doenças estão adaptadas a viver expandem dramaticamente, tanto em termos de espaço como em termos de tempo de exposição.

É como se tivéssemos decidido carregar triliões de mosquitos com o que equivale a munição viva biológica e, em seguida, lhes déssemos a capacidade de descarregar essa munição letal sobre extensões cada vez mais amplas e mais abrangentes do globo. Isso é basicamente o que se obtém quando se aquece o mundo. Uma expansão e invasão global de doenças até então desconhecidas espalha-se pelo mundo através de vetores como o mosquito.

A Explosão Viral do Zika Ocorre Durante o Ano Mais Quente Já Registado

Voltando ao nosso conto de expansão do vírus Zika desde 2007 até 2016, descobrimos que o Zika durante este espaço de tempo tinha saltado para fora do seu habitat tradicional do século XX e, coincidentemente, expandido com a propagação de mosquitos da variedade Aedes ao longo das bandas de clima em aquecimento e umedecimento. Em 2007, o primeiro salto fora da África Central e Polinésia Francesa ocorreu em Yap – uma parte dos Estados Federados da Micronésia.

O alcance da epidemia, em seguida, expandiu novamente até 2014 para a Ilha de Páscoa, Polinésia mais ampla, as Ilhas Cook, e a Nova Caledónia. A expansão geográfica desta doença ao longo das cadeias de ilhas do Pacífico indica que o aumento da virilidade do Zika desencadeou-se, provavelmente, a partir da estirpe da Polinésia Francesa e não a partir da estirpe em África.

Então, em 2015, coordenado com as temperaturas globais mais quentes já registadas, o vírus Zika pulou para fora dos seus limites ambientais da bacia das ilhas do Pacífico e espalhou-se para o Brasil e Caribe. O vírus, subsequentemente, espalhou-se através de uma ampla secção da América Central e América do Sul. A partir de ontem, avisos de viagens de possível exposição ao vírus Zika estavam incluídos nesta lista de 22 países:

Barbados, Bolívia, Brasil, Cabo Verde, Colômbia, Equador, El Salvador, Guiana Francesa, Guadalupe, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Martinica, México, Panamá, Paraguai, Porto Rico, Saint Martin, Samoa, Suriname e Venezuela.

Hoje, a Organização Mundial da Saúde estava a emitir avisos de que até 4 milhões de pessoas podem acabar por ser infetadas antes do surto mais recente estar terminado.

O Nova Distopia Climática – Estamos Agora a Dizer às Mulheres para Não Terem Filhos

Como muitas febres virais, o Zika ataca o sistema nervoso das pessoas que infecta. E apesar de os sintomas iniciais poderem parecer leves, com até 80 por cento das pessoas infetadas a mostrarem nenhum sintoma de todo, o vírus pode causar danos graves a longo prazo tanto para bebés não nascidos como para indivíduos vulneráveis. Como as taxas de infecção pelo vírus aumentaram, foram suspeitas de estarem relacionadas instâncias de um tipo de paralisia temporária chamada Síndrome de Guillain Barre e um encolhimento aterrorizante das cabeças de bebés em gestação chamado microcefalia, que também aumentaram [O que é Microcefalia, na Wikipédia].

Microcefalia e vírus Zika

Um aumento nas taxas de microcefalia – um encolhimento trágico das cabeças de crianças não nascidas como resultado de danos virais no sistema nervoso – entre as crianças em regiões de surto do vírus Zika levantou preocupações globais quanto ao impacto contínuo do vírus. Mais particularmente, as mulheres em um número crescente de países estão agora a ser solicitadas a abster-se de terem filhos durante meses ou mesmo anos. Fonte da imagem: O CDC.

Hoje na BBC:

O vírus, que não apresenta sintomas 80% das vezes, é acusado de causar desenvolvimento atrofiado do cérebro em bebés. Cerca de 3.500 casos de microcefalia foram identificados até agora no Brasil. E pessoal médico em Recife, a capital do estado no Nordeste no Brasil, dizem que estão a lutar para lidar com pelo menos 240 casos de microcefalia em crianças.O Secretário de Saúde da cidade, Jailson Correia, um especialista em doenças tropicais, disse à BBC que ele e outros precisam “de lutar duro”.

Estes são impactos profundamente terríveis. Impactos que não foram inicialmente esperados de um vírus que ao início parecia tão inócuo. E é essa ameaça de microcefalia gerada por Zika entre os lactentes que está a impulsionar tudo, desde avisos de viagem para a medida inédita de alguns países solicitarem que as suas populações humanas dêem o passo extremo de evitar a gravidez.

Desde segunda-feira, autoridades no Brasil, Colômbia, Jamaica, El Salvador e Venezuela estavam a exortar as mulheres a não engravidarem. A moratória para a gravidez – que é voluntária – varia em duração de alguns meses a dois anos no caso de El Salvador. E a razão para a moratória solicitada é, infelizmente, prática. As autoridades desses países estão agora forçadas a escolher entre perguntar às mulheres para evitarem a gravidez ou terem os seus sistemas de saúde sobrecarregados por lactentes que sofrem de microcefalia.

Com uma vacina provavelmente a ​​10-12 anos de distância para o vírus Zika, com 4 milhões de casos esperados no foco atual, e com o habitat dos mosquitos Aedes que carregam o vírus a continuar a expandir-se na cauda de um aquecimento global forçado pelos humanos, estamos infelizmente apenas no início desta tragédia. Um evento que, como Bill McKibben observou no The Guardian no início desta semana, saltou totalmente para o reino da distopia.

Um Deslocamento Profundo para a Humanidade

A microcefalia entre crianças é ao mesmo tempo trágica e terrível. O seu impacto atinge o cerne daquilo que significa ser-se um ser humano. Se um vírus, conduzido para regiões distantes pelo aquecimento do mundo através da queima de combustíveis fósseis, é capaz de paralisar os nossos filhos enquanto ainda no útero, a nossa sensação de segurança é abalada enquanto testemunhamos esta brutalidade de partir o coração. É o tipo de coisa tão terrível que não podia vir da imaginação humana. E é por isso que, quando o testemunhamos, experimentamos uma estranha sensação de deslocamento. Um sentimento surreal de que nada está correto. Como o momento depois do carro bater no poste de telefone, o momento em que ainda estás a voar pelo ar, arremessado do veículo. O momento imediatamente antes do impacto inevitável com o pavimento.

Mas o impacto, infelizmente, vem. Não estamos apenas a tornar muitas das espécies deste mundo em órfãos climáticos. Em criaturas sem um espaço seguro para viver e prosperar, também o estamos a fazer a nós mesmos. Pois os filhos de Zika também são órfãos climáticos. As vítimas trágicas de uma variedade crescente de condições ambientais que são perigosas para a vida humana. E o Zika é apenas um exemplo das doenças mortais, condições meteorológicas extremas, elevação do nível do mar, colapso glacial, morte do oceano, e rotura das colheitas que estamos agora a forçar sobre o habitat humano. Um habitat que estamos a tornar menos habitável para nós mesmos e para praticamente tudo o resto.

É isso que significa deslocação terminal – ser forçadamente excluído. Ser-se, de repente, introduzido num ambiente muito hostil em que a sobrevivência, e neste caso a reprodução, é, de repente, um negócio arriscado. Para os seres humanos, este é um deslocamento profundo. Um que faz com que o mundo em que estamos a viver agora pareça por demais estranho. Pois não estamos a viver no mundo que estamos acostumados. E aquele que estamos a fazer é ao mesmo tempo terrível e trágico. E, com toda a honestidade, precisamos desesperadamente de parar com os danos antes de qualquer outra coisa muito grande, ou terrível, ou essencial, se solte.

Links:

O Virus Zika Prenuncia o Nosso Futuro Distópico Climático

Sobre Mudanças Climáticas e Doenças Transmitidas por Vetores

O CDC

O Virus Zika

Zika Vírus Originário de Mosquito Espalha-se Explosivamente

Aedes Aegypti

UCAR: Mudanças Climáticas e Doença Originária em Vetor

Cidade Brasileira Vê um Pico nos Casos de Microcefalia

Fatos sobre Microcefalia

Aquecimento Global Aumenta População de Mosquito em 50 por Cento

Traduzido do original Zika and the New Climate Dystopia — Human Hothouse as Disease Multiplier, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 28 de Janeiro de 2016.