Qual a evidência científica quanto à existência e libertação de hidratos de metano do leito do Oceano Ártico?

Níveis Atmosféricos Globais de Metano. A 30 de Agosto de 2014 foram registados 1838 partes por bilião (ppb) demetano a 24.000 pés de altitude (7,5 km). Um número muito superior às médias de 2000-2007 e 2012-2013.
Níveis Atmosféricos Globais de Metano. A 30 de Agosto de 2014 foram registados 1838 partes por bilião (ppb) demetano a 24.000 pés de altitude (7,5 km). Um número muito superior às médias de 2000-2007 e 2012-2013.

Peter Wadhams, professor de Física dos Oceanos e director do Grupo de Física dos Oceanos Polares (Polar Ocean Physics Group) no Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica da Universidade de Cambridge, entrevistado por Nick Breeze, é uma referência interessantíssima no assunto do aquecimento global e alterações climáticas, especialmente no que diz respeito ao Ártico e metano. Ele esclarece a situação e acrescenta implicações para a humanidade e sustentabilidade do planeta. A entrevista está legendada em português cuja tradução e publicação foi iniciativa da www.NOVACOMUNIDADE.org – O MODELO COOPERATIVO FAMILIAR. Um canal youtube que promete compensar a subscrição.

A transcrição da entrevista será também copiada neste post, para aqueles que preferem ler, assim que disponível. É interessante no mínimo,ouvir um professor com tal historial de carreira falar-nos assim sobre o futuro próximo a humanidade.


Transcrição do vídeo:

Entrevista a Peter Wadhams, Professor de Física dos Oceanos, e Chefe do Grupo de Física do Oceano Polar no Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica da Universidade de Cambridge. Pode explicar o impacto que a libertação de 50 gigatoneladas de metano teria sobre a atmosfera e quais seriam os efeitos para a vida na Terra e para a Humanidade em particular? Num artigo para a “Nature” nós modelámos o efeito duma libertação de 50 gigatoneladas e convertendo o metano no dióxido de carbono equivalente e olhando para o que isso faz ás temperaturas globais descobriu-se que as temperaturas globais aumentavam até a um máximo de cerca de 0,6 graus e isso seria alcançado 20 anos depois da libertação e assumimos que a libertação ocorreria ao longo de 10 anos. Que 20 anos depois da emissão começar as temperaturas teriam aumentado 0,6 graus. E isso é uma adição bastante substancial para o aquecimento global. Existem pesquisas que mostrem que estamos a caminho duma tão grande libertação de metano? E se a resposta for sim, na sua opinião quão sólidas são essas pesquisas? As pesquisas sólidas que mostram que a libertação está a acontecer, do trabalho que o grupo americano e russo da Universidade do Alaska Pacific Oceanografic Lab tem vindo a fazer todos os verões no mar siberiano, está mostrando que a cada ano estamos vendo cada vez mais e mais emissões de metano no fundo do mar e que atingem a superfície porque a água é rasa, com uma profundidade de cerca de 70 metros, já vimos muitas fotos, filmes, e dados a partir deles mostrando essas emissões. E no próximo ano vamos juntar-nos a eles para continuar a fazer esse trabalho. Então, existe evidência sólida das emissões de metano do fundo do mar raso e também existe evidência sólida de emissões nas águas profundas em Spitsbergen mas aí o metano tem tempo para se dissolver na água durante a subida portanto não é diretamente libertado na atmosfera, enquanto que o metano das aguas rasas é. Então isso é bastante sólido. A questão da quantidade é a pergunta mais difícil porque olhar para o atual ritmo de emissões e para o conteúdo de hidratos de metano nos sedimentos é o que permite estimar quanto metano irá ser libertado num futuro derretimento de sedimentos devido a um aumento da temperatura das aguas. E neste momento para essas estimativas temos que confiar no trabalho que tem vindo a ser feito por Natalia Shakhova e Igor Semiletov. Eles tem um conhecimento especializado das condições do leito marinho e foram eles que estimaram as 50 gigatoneladas. Então esse valor pode ser revisto para cima ou para baixo se mais trabalhos futuros forem feitos nessa área.

Pensa que a civilização poderia sobreviver a uma libertação de 50 gigatoneladas de metano?

Não, não penso que consiga. Se olharmos para as atuais previsões de aumento do aquecimento global o que é um bocado estranho é o facto das projeções institucionais – mesmo as mais cautelosas produzidas pelo IPCC – ainda nos dão cerca de 4 graus de aquecimento até ao final do século. E 2 graus foi o numero tomado arbitrariamente como o nível a partir do qual coisas desagradáveis acontecerão – não sei porque 2 graus mas… –

e esses 2 graus serão alcançados no meio do século, e 4 graus no final do século. Então, as pessoas que calculam o que 4 graus fariam para a produção de alimentos, para a morte de florestas, para a aceleração do aquecimento devido á entrada de vários feedbacks extras… a conclusão geral é bastante medonha: que se tivermos um aquecimento de 4 graus acontecerá o colapso da civilização porque o mundo não vai de forma alguma conseguir sustentar nem de perto nem de longe a sua atual população por isso seria o caos, guerras…

A coisa estranha é que isso está previsto nos relatórios do IPCC… Preveem um aquecimento de 4 graus até ao final do século mas em nenhum lado eles afirmam que 4 graus seria uma catástrofe economicamente e socialmente para o planeta. E agora com este metano do Ártico estamos simplesmente adicionando outro elemento de aquecimento mesmo que seja apenas uma adição de 0,6 isso adianta a data em que aconteceria um aquecimento catastrófico em talvez 20 anos. Por isso iremos entrar num estado em que o ritmo de aquecimento nos está dando algo que levará a sociedade a colapsar e iremos entrar nesse estado mais rapidamente por causa das emissões marítimas.


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One thought on “Qual a evidência científica de libertação de metano no Ártico?

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