Incêndio de Fort McMurray Desliga 640.000 Barris por Dia da Produção das Areias Betuminosas

Incêndio de Fort McMurray Desliga 640.000 Barris por Dia da Produção das Areias Betuminosas
Cercados pelo fogo da negação, o incêndio de Fort McMurray atinge Anzac e desliga 640.000 barris por dia na produção das areias betuminosas

Uma simples questão de facto, um facto que muitos que investiram numa indústria de petróleo destrutiva não querem enfrentam agora, é que um fogo cuja extrema intensidade para tão cedo na temporada foi impulsionada pela mudança climática causada pelo homem, está agora a fazer o que o Canadá não fazia. Ele está a encerrar a produção de petróleo nas areias betuminosas – um dos combustíveis mais elevados em carbono no planeta Terra.

Aumentos na frequência de incêndios devido às alterações climáticas

(Aumentos na frequência de incêndios devido às alterações climáticas, como previsto por execuções de modelos computorizados, estão ilustrados no mapa acima. De acordo com um relatório na WeatherUnderground – “Um grande aumento em incêndios em grande parte do mundo é esperado à medida que avançamos através deste século. Usando modelos de incêndio conduzidos pelos resultados de dezasseis modelos climáticos utilizados no relatório do IPCC de 2007, os pesquisadores descobriram que 38% do planeta deve ver um aumento na atividade de incêndios [devido à mudança climática] durante os próximos 30 anos. Este número aumenta para 62% lá pelo final do século“. Fonte da imagem: Mudanças Climáticas e Disrupções na Atividade Global de Incêndios).

Existem outros factos que precisam igualmente de ser encarados. Um deles é o fato de que os moradores de Fort McMurray tiveram as suas vidas postas em risco por um novo tipo de fogo que é agora muito mais provável de ocorrer. Um tipo de evento que tenderá a emergir com uma frequência e intensidade crescente. Um que está a aumentar o risco de danos para aqueles que vivem em todo o Canadá, em todo o Ártico e em grande parte do mundo.

É uma verdade difícil de enfrentar. Uma que muitos políticos canadianos, que confrontam a impossível tarefa de equilibrar as demandas de interesses económicos à base de petróleo com a muito clara necessidade de mitigar a mudança climática, estão a ter dificuldade em enfrentar. Mas uma que tem que ser seriamente observada e não ignorada por qualquer pessoa preocupada com a segurança dos que vivem em Fort McMurray ou em qualquer outro lugar. Pois a menos que os gases de efeito estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis, como as areias betuminosas, parem de atingir a nossa atmosfera, então este tipo de eventos só vão continuar a piorar.

Nós já estamos a começar a ver terríveis eventos de incêndios do tipo que nunca antes experimentámos a emergirem no Ártico e em seções do norte da América do Norte. E com o mundo agora 1 C mais quente que as médias de 1880, grandes incêndios no Ártico são agora dez vezes mais prováveis ​​de ocorrer. No Alasca – uma região que partilha as tendências do clima com o Canadá – a duração da época de incêndios cresceu em 40 por cento desde 1950.

Em todo o mundo, a história é a mesma. O aquecimento da nossa atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis está a aumentar a frequência e intensidade de incêndios. Um ponto no qual até mesmo as projeções conservadoras do IPCC têm vindo a tentar impressionar os decisores políticos desde o início de 1990 (ver gráfico acima). E, numa parte significativa, esse perigo crescente tem recebido contribuição dos combustíveis de areias betuminosas que a indústria de energia de Fort McMurray foi projetada para extrair.

Aumento na Frequência de incêndios no Ártico ao longo dos anos

(Um estudo realizado pela Climate Central no ano passado descobriu que o aquecimento no Alasca resultou num prolongamento da época de incêndios em 40 por cento e que o ritmo de geração de grandes incêndios havia aumentado em dez vezes [x10]. É importante notar que o clima e as folhagens em Alberta, Colúmbia Britânica, e nos Territórios do Noroeste são muito semelhantes aos do Alasca. E o aumentando da intensidade e frequência dos incêndios devido ao aquecimento no Alasca também está igualmente a impactar o regime de incêndios canadiano. Fonte da imagem: The Age of Alaskan Wildfires.)

Apesar das escolhas políticas arriscadas e prejudiciais conduzidas pela indústria de combustíveis fósseis no Canadá, não devíamos ficar indiferentes à perda e deslocamento que muitos na zona de produção de areias betuminosas estão agora a passar. É uma tragédia. Puro e simples. Milhares de pessoas perderam as suas casas e meios de subsistência. Mas não devemos deixar-nos cegar quanto à realidade da situação simplesmente devido ao facto de ser uma comunidade de petróleo, desta vez, quem está a sofrer as devastações das condições climáticas extremas. Pois milhares de canadianos estão agora a juntar-se a um conjunto cada vez maior de refugiados da mudança climática. Vítimas e, alguns deles, contribuintes de a uma catástrofe nascida da húbris e cegueira de uma indústria do petróleo. Um evento que foca uma luz sobre os riscos contínuos e crescentes colocados pela extração de areias de alcatrão e sobre a vulnerabilidade dos fundamentos económicos desse combustível prejudicial para as forças climáticas que está agora a começar a soltar.

Fogo em Rápida Expansão Força Aeroporto e a Comunidade Anzac, a 31 Milhas de Distância de Fort McMurray, a Evacuar

Pirocúmulo no incêndio de Fort McMurray, Alberta, Canadá

(Pirocúmulo – uma nuvem de tempestade formando-se a partir da corrente ascendente de calor de um fogo intenso. Uma palavra que vai começar a entrar em uso comum à medida que as alterações climáticas forçadas pelos humanos tornam os incêndios poderosos cada vez mais comuns. Aqui vemos uma pirocúmulo maciça a aproximar-se de Anzac e do Aeroporto de Fort McMurray na quarta-feira. Fonte da imagem: Twitter Feed de Sean Amato).

Ontem, enquanto bombeiros correram para proteger o centro da cidade de Fort McMurray e arredores a norte, um grande incêndio ferveu e cresceu sitiando-se na cidade. Retido no seu progresso rumo ao norte em bairros ao longo do rio Athabasca, em direção à área infértil de extração de areias betuminosas, e para a estação de tratamento das águas por esforços do combate ao incêndio, o fogo inchou enquanto recuava. Virando-se para o sul e leste, começou a invadir o aeroporto da cidade e até mesmo uma de suas ramificações explodiu em direção ao subúrbio bem povoado de Anzac, 30 milhas a sul.

Lá, um centro de operações de emergência tinha acabado de se instalar após ter sido forçado a sair da sua localização na cidade quando uma chuva de brasas expulsa da nuvem pirocúmulo iminente sobre a cidade lhe colocava um tecto ardente. O novo centro de operações estava bem longe do caminho do incêndio previsto para ir em direção ao norte. E os oficiais tinham alguma razão para acreditar que o centro recém-movido seria seguro. Um centro de evacuação a sul – abrigando centenas de pessoas agora desabrigadas pelo fogo – foi também montado na área.

Incêndio de Fort McMurray invade Anzac sob uma imponente pirocúmulo

(Incêndio de Fort McMurray invade Anzac sob uma imponente pirocúmulo na quarta-feira. Fonte da imagem: Twitter Feed Emily Metrz).

Na quarta-feira à tarde, o aeroporto, a comunidade de Anzac, o centro de operações de emergência recém-movido, e o centro de evacuação, todos caíram sob a sombra de um pirocúmulo a inchar. Uma grande tempestade de fumo, cinzas e brasas ardentes levantada pelo calor do fogo por baixo. Todos nesta área foram forçados a evacuar (um bom número deles pela segunda vez em dois dias) enquanto a enorme nuvem crescia e os fogos avançavam.

Quando a noite caiu, o fumo envolvia o aeroporto – tapando-o de vista. E muitos bombeiros já sabiam que a comunidade de Anzac estaria perdida. Sean Amato twittou esta mensagem quarta-feira enquanto o fogo avançava – “Bombeiro [diz]:” Anzac está f **dida. Não podemos lutar contra isso. Não temos bombardeiros. Saiam agora.”

Incêndio de Fort McMurray, Alberta, Canadá, num mapa de satelite

(Mapa térmico de incêndio fornecido pela NASA na quinta-feira revela a extensão extraordinária dos fogos e cicatrizes a 4 de Maio – abrangendo cerca de 10.000 hectares. A 5 de Maio, esta zona tinha ampliado vastamente para 85.000 hectares. Fonte da imagem: Observatório da Terra da NASA).

Na quinta-feira, uma enorme área que se estende desde o aeroporto até Anzac tinha sido abandonada ao fogo. Adicionando grandemente aos 10.000 hectares, o enorme incêndio foi estimado ter queimado, ao meio-dia de quarta-feira, pela expansão do fogo em mais de 8 vezes, para 85.000 hectares – uma área de seis vezes o tamanho de San Francisco ou mais de 300 milhas quadradas.

Produção das Areias Betuminosas Detida

A este ponto, os incêndios haviam deslocado tantos trabalhadores e aleijado tanta infra-estrutura que a produção das areias betuminosas na região acabou por parar. Na quinta-feira manhã cedo, mais de 640.000 barris por dia do petróleo sintético e climatologicamente volátil haviam parado. Representando mais de 16 por cento da produção de petróleo bruto do Canadá, os cortes forçados pelo incêndio foram significativos o suficiente para impulsionar os preços do petróleo nos mercados globais tão alto quanto 46 dólares por barril nas negociações de hoje cedo. Mais encerramentos de produção eram prováveis em outros grandes extratores de areias betuminosas numa luta nos cortes o fluxo do petróleo já que o incêndio de Fort McMurray se tornou cada vez menos previsível. Perto de Anzac, a extensão para sul dos incêndios ameaçava uma instalação de produção de areias betuminosas Conoco Philips de 30.000 barris por dia na região de Surmont – forçando uma paragem na produção e a evacuação de todos os trabalhadores das areias betuminosas.

Incêndio em Fort McMurray aproxima-se das areias betuminosas

(A imagem do satélite LANCE-MODIS do incêndio de Fort McMurray na quinta-feira, 5 de Maio, mostra o fogo a expandir-se em direção às instalações de extração de areias betuminosas. Para referência, as operações de areias betuminosas são os poços de minas claramente visíveis como áreas carecas castanhas na imagem acima. A maior parte de Fort McMurray está coberta pela pluma de fumo. O bordo inferior da imagem são 60 milhas. Fonte da imagem: LANCE-MODIS).

No final da tarde de quinta-feira, a passagem do satélite MODIS revelou um grande incêndio cuja extensão norte parece ter atingido entre 3 a 5 quilómetros dentro da parte mais a sul das instalações de areias betuminosas. A borda ocidental do incêndio de Fort McMurray expande-se apresentando uma frente de 10 a 15 quilómetros aproximando-se para norte e oeste. As bordas sul e leste do incêndio permanecem obscurecidas pelo que é agora uma grande nuvem de fumo. Uma que é provavelmente agora visível nos céus de estados do norte e centro dos EUA.

Uma Longa Batalha Pela Frente enquanto as Temperaturas estão Previstas para Permanecerem Muito Mais Quentes do que o Normal

Uma mudança do vento para norte, juntamente com o afluxo de temperaturas mais baixas na quinta-feira pode ajudar os bombeiros a ganharem algum progresso. As condições sobre Fort McMurray hoje estavam nublado com ventos de 10 a 15 mph de noroeste e temperaturas em torno de 64 (F). Contudo, pouca ou nenhuma chuva caiu sobre a área já que uma frente passou esta manhã. Enquanto isso, espera-se uma subida das leituras do termómetro a meio dos 80 [26C] de novo no sábado, com condições muito secas a tomarem conta.

Nesta altura, é apenas Maio – não Julho, quando tais condições meteorológicas extremas de incêndios normalmente seriam possíveis. As temperaturas médias para Fort McMurray tendem para os 50 e muitos ou 60 e poucos nesta época do ano. Então, até as leituras de hoje de 64 F são mais quentes do que o habitual, com previsão de escalada das temperaturas para 20-25 F acima da média novamente no sábado. Dada esta tendência, e dado o facto de que ela vai ficar ainda mais quente e seco nos próximos meses, parece que Fort McMurray – uma cidade nas garras das consequências climáticas difíceis que ajudou a criar – tem garantida uma longa e dura luta.

Este artigo foi primeiramente publicado em AquecimentoGlobal.info, um site destinado a agregar a mais recente ciência sobre as alterações climáticas e o consequente aquecimento global. Traduzido do original
Besieged by the Fires of Denial — Fort McMurray Blaze Grows to Overwhelm Anzac, Shuts off 640,000 Barrels per Day of Tar Sands Production
, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 5 de Maio de 2016.

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Perigo de Incêndios Florestais Aumenta

em aquecimentoglobal.info/

Dr. James Hansen – Aquecimento Humano Força Aumento Exponencial do Nível do Mar Vários Metros Neste Século

Dr. James Hansen – Aquecimento Humano Força Aumento Exponencial do Nível do Mar Vários Metros Neste Século

A continuação de emissões elevadas de combustíveis fósseis neste século está previsto que produza … um aumento crescente do nível do mar, alcançando vários metros numa escala de tempo de 50 a 150 anos. — Uma afirmação de um novo estudo científico conduzido pelo Dr. James Hansen e intitulado Derretimento do Gelo, Subida do Nível do Mar, e Supertempestades.

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Esta semana, o Dr. James Hansen e colegas publicaram um bocado de pesquisa científica inovadora dos diabos. É um estudo multidisciplinar incorporando o trabalho de 19 cientistas climáticos de topo, glaciólogos, paleoclimatólogos e outros pesquisadores dos Sistemas da Terra. Cientistas da NASA, GEOMAR, JPL, e outras agências de investigação de ponta, incluindo nomes reconhecidos como o Dr. Eric Rignot e o Dr Makiko Sato, todos aparecem na lista de contribuintes.

Aumento do nível do mar

(Taxas de aumento do nível do mar desde 1900 associadas com um salto de 1,1 C nas temperaturas globais já mostraram uma progressão não-linear. Ice Melt, Sea Level Rise, and Superstorms tenta definir o quão rápido as taxas de derretimento glacial irão aumentar ao longo das próximas décadas.)

O documento cobre três tópicos relacionados com a rápida acumulação de gases de efeito estufa na atmosfera derivados dos combustíveis fósseis e o rápido aquecimento relacionado – Derretimento do Gelo, Subida do Nível do Mar, e Supertempestades. Por outras palavras, o estudo olha para o que provavelmente será o início de um evento Heinrich durante o século 21, desde que os níveis elevados de emissões de gases de efeito estufa humanos continuem.

Um evento Heinrich para o século 21

Para aqueles não familiarizados com um Evento Heinrich – é um daqueles incidentes relacionados com mudanças climáticas desastrosas que realmente não queremos ver emergir. Um que impulsiona o aumento rápido do nível do mar, deslocamentos climáticos arrasadores, e é provável também que desencadeie supertempestades regionais e, possivelmente, hemisféricas. Algo que ocorreu várias vezes no passado geológico, quando as grandes camadas de gelo da Gronelândia e da Antártida Ocidental aqueceram o suficiente para descarregarem armadas de icebergues no Atlântico Norte e / ou no Oceano Antártico. O tipo de coisa que o cientista Steve Pacala chamou de Monstro Climático no Armário. E o novo estudo do Dr. James Hansen e colegas é o primeiro de seu tipo a explorar cientificamente a potencial ocorrência de um tal evento tão anormal e perigoso durante o século 21.

Porque o estudo abrange uma ampla gama de tópicos relacionados com Eventos Heinrich, decidi escrever um post duplo cobrindo-o. Este post incidirá sobre as questões da derretimento do gelo e subida do nível do mar. O aspecto de geração de supertempestades típico de Eventos Heinrich – que o Dr. Hansen e seus colegas descobriram ser capaz de produzir ondas poderosas o suficiente para arrancarem pedras de 1.000 toneladas do fundo do mar e depositá-las nas encostas das Bahamas, 130 pés acima do nível do mar, 115.000 anos atrás – é algo que nós vamos cobrir num segundo post relacionado, ao longo dos próximos dias.

Águas Quentes do Oceano Atacam as Fracas Barrigas Glaciares

O principal motor de Eventos Heinrich são picos nas taxas de derretimento glacial proveniente dos lençóis de gelo da Gronelândia e da Antártida Ocidental, e a saída relacionada de icebergues e água doce para o Atlântico Norte ou o Oceano Antártico. O estudo de Hansen e seus colegas baseia-se no trabalho recente de Eric Rignot e outros que descobriram que o contacto das águas do oceano em aquecimento com as faces submersas das falésias glaciais e por baixo dos lados das plataformas de gelo flutuante, é um condutor primário para o derretimento e lançamento de icebergs durante os períodos de aumento da temperatura local e global.

Feedback de amplificação do derretimento dos glaciares pelas águas doces e frias na Gronelândia e Antártida

(Ilustração do estudo Derretimento do Gelo, Subida do Nível do Mar, e Supertempestades mostra como a estratificação do oceano atua como um feedback amplificador do derretimento glacial. Águas doces e frias superficiais geradas pelo lançamento inicial de gelo preparam uma espécie de correia transportadora de calor no oceano que entrega mais e mais água quente para as barrigas submersas das grandes camadas de gelo. Na Gronelândia, camas progressivas limitam a quantidade de gelo que pode ser lançado em eventos repentinos. Na Antártida, camas retrógradas abaixo do nível do mar configuram uma situação em que o feedback de amplificação do derretimento é reforçado ainda mais.)

Glaciares e plataformas de gelo fixos em terra são, primeiro, enfraquecidos por taxas de derretimento lento mas em aceleração. Eventualmente, os glaciares e prateleiras colapsam devido ao processo de enfraquecimento pelo derretimento o qual leva a um surgimento de gelo previamente stressado deslizando para fora para os oceanos. À medida que mais água doce do derretimento expande sobre a superfície do oceano, ela prende o calor em camadas mais profundas da coluna de água perto das faces glaciares submersas. Logo, o derretimento inicial produz um feedback amplificador que entrega mais calor do oceano para o gelo e, por sua vez, resulta em mais gelo que corre para o Atlântico Norte ou o Oceano Antártico.

Taxas Exponenciais de Derretimento Glacial e Elevação do Nível do Mar

É este o mecanismo que Hansen e seus colegas temem que entre em jogo ao longo do século 21. O seu estudo identifica um risco de que tal mecanismo poderia levar a tempos de duplicação de derretimento de 5, 10, ou 20 anos para a Gronelândia, Antártica Ocidental ou ambos neste século. Uma nova perspectiva para alguns dos melhores cientistas do mundo que assumem que o risco de derretimento não linear é alto o suficiente para apresentar uma grande preocupação. Como exemplo, num tempo de duplicação de 10 anos, a presente elevação do nível do mar aproximadamente de 3 mm por ano duplicaria para 6 mm por ano até 2026, 12 mm por ano até 2036, 2,4 cm por ano até 2046, e quase 5 cm por ano até 2056.

A duplicação de frequência em eventos não lineares muitas vezes não se encaixa numa curva exponencial pura – e em vez tende a seguir uma série de picos e recessões com grandes eventos de transição a surgirem no final de qualquer ‘curva’. Mas a perspectiva particular de Hansen é útil dado o facto das actuais taxas de aumento do nível do mar não parecerem estar a seguir um padrão linear e devido ao facto do mecanismo para grandes picos de derretimento glacial do tipo Evento Heinrich estar a tornar-se mais apoiado na ciência de observação.
Taxa de Alteração da Massa de Gelo da Gronelândia e Antártida

(Ainda é cedo para o derretimento da Gronelândia e da Antártida. Contudo, as linhas de tendência atuais apontam para um potencial para elevação multímetro do nível do mar este século. Fonte da imagem: Ice Melt, Sea Level Rise, and Superstorms).

Medidas anteriores de perda de massa de gelo da Gronelândia e Antártida implicam tempos de duplicação de derretimento de 8 a 19 anos na Gronelândia e tempos de duplicação de fusão de 5 a 10 anos para a Antártida. Para referência, se ambos estes sistemas de gelo continuassem a duplicar a perda de massa numa base mais ou menos de 10 anos, a elevação do nível do mar total por volta dos anos 2090 seria igual a 5 metros ou 16.4 pés. Em contraste, um tempo de duplicação de cinco anos resultaria em 5 metros de elevação do nível do mar no final da década de 2050 e um tempo de duplicação de 20 anos resultaria em quase um metro de elevação do nível do mar até ao final deste século e 5 metros de elevação do nível do mar em 2160.

Hansen observa que estes ainda são os primeiros dias e é pouco provável que as tendências de resposta das camadas de gelo se tornem claras nesta fase. No entanto, as linhas de tendência inicial, embora provavelmente menos precisas, parecem representar uma razão para preocupação. Além disso, Hansen aponta que as taxas de aumento do nível do mar são menos prováveis de serem constrangidas por inércia das camadas de gelo durante períodos em que as temperaturas globais estão a subir rapidamente. Taxas projetadas para o aumento da temperatura global no intervalo de 1 a 5 C neste século estão na ordem de 20 a 100 vezes mais rápidas do que durante o final da última idade do gelo — no limite superior e cobrindo o valor de todo o aquecimento da era glaciar que ocorreu durante 10.000 anos em apenas um século. E Hansen observa que esta taxa potencialmente extrema de aumento da temperatura representa um risco muito maior de rápida desestabilização glacial do que o indicado pelos modelos atuais de derretimento glacial do IPCC.

A pesquisa de Hansen também aponta para a probabilidade de que o rápido derretimento glacial iria colocar temporariamente uma pausa nas taxas de aquecimento atmosférico global pela refrigeração local de superfícies oceânicas e ao aumentar a taxa de transferência de calor para as camadas oceânicas médias. E é esta reviravolta de energia e o desequilíbrio elevado relacionado que proporciona a preparação de uma potencial tempestade muito grave à medida que as taxas de derretimento glacial vão rampa acima.

Traduzido do original Dr James Hansen — Human Warming Pushing Seas Toward Exponential Rise of Several Meters This Century, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 23 de Março de 2016.

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Painel All Star da Ciência Climática Deixa Cair uma Bomba de Estudo

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Cenários de Sobrevivência Projetados pelo IPCC Incluem Geoengenharia que Ainda Não Existe

Cenários de Sobrevivência Projetados pelo IPCC Incluem Geoengenharia que Ainda Não Existe

Os cenários de sobrevivência da espécie humana projetados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), ou como lhes chamam, RCPs, assumem que vamos remover vários biliões de toneladas de CO2 da atmosfera com tecnologia de geoengenharia que ainda não possuímos.

Nick Breeze mantém o blogue Envisionation cujo contexto de muito do conteúdo está na crise das alterações climáticas e na nossa resposta individual e coletiva à mesma.

Conteúdo traduzido do original Survivable IPCC projections based on science fiction – reality is far worse

Transcrição do vídeo: Projeções do IPCC são Ficção: A Realidade é Muito Pior

No último relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas – IPCC-AR5, foi publicada uma seleção de percursos de concentração representativos, ou RCPs. O Dr. Matt Watson da School of Earth Sciences, na Universidade de Bristol no Reino Unido, defendeu este ponto com firmeza, numa recente reunião da Royal Society em Londres. E esta é a razão. Estas são as mais recentes projeções do Painel Internacional para as Alterações Climáticas, e o que é alarmante é que estes dois cenários na realidade incluem explicitamente tecnologia de emissões [de CO2] negativas. Ou seja, há geoengenharia do tipo de remoção de dióxido de carbono incluída nos casos dos melhores cenários. A coisa verdadeiramente alarmante para nós é que estamos neste percurso aqui, o RCP 8.5. Estamos alinhados com essa trajetória, e isso coloca-nos numa situação muito muito diferente no tempo de vida dos nossos filhos ou netos. NICK BREEZE: De entre estes cenários projetados no futuro, apenas 2 parecem poder manter-nos próximo de uma subida de temperatura de 2°C. Tal como o Dr Watson acabou de mencionar, estes denominam-se respectivamente RCP 2.6 e RCP 4.5. Este gráfico destina-se a dar-nos uma ideia de quais concentrações de gases de efeito estufa nos levam a quais temperaturas, sendo que os 2°C são o limite consensual de segurança. As linhas âmbar e preta são de registos históricos, e a vermelha, a verde e a azul, são previsões. Tal como Watson aludiu, o RCP no qual nos encontramos presentemente é o vermelho, chamado RCP 8.5. Este não é um percurso de sobrevivência. Os RCPs de 4.5 a 8.5 irão fazer-nos perder o sequestro de carbono pelas árvores e os mantos de gelo. Sem as árvores, vamos ficar inundados de gases de efeito estufa e a humanidade simplesmente não vai conseguir sobreviver. Assim resta-nos o RCP 2.6, o qual tem um intervalo de temperatura estimado em 0.9°C a 2.3°C. Já estamos muito próximos do cenário de 0.9°C [FEV 2016 com 1.57°C] logo as nossas chances de nos mantermos dentro do intervalo de temperatura são muito baixas, especialmente quando se considera a estimação de que as emissões ainda aumentem. O ex-presidente da Royal Society, Professor Martin Rees, fez esta declaração durante a nossa entrevista. Penso que todos nós temos esperança de que a redução de emissões seja alcançada, mas a falta de sucesso das tentativas de acordos internacionais encorajam pessimismo, e eu, honestamente, apostaria, tristemente de facto, que as emissões anuais de CO2 irão subir ano após ano, durante pelo menos os próximos 20 anos, e isso irá levar a um nível acumulativo próximo de 500 partes por milhão por essa altura. Baseado naquilo que sabemos, é justo dizer-se que a sensibilidade da Terra às emissões de gases de efeito estufa significa que vamos experienciar ainda muito mais aquecimento com um impulso adicionado pelos mecanismos de reforço como a libertação de metano e a perda de árvores. Contudo, há outra mosca na sopa quanto a quase todos os percursos representativos de concentrações. Como o Dr Watson disse, eles na realidade ficcionaram uma solução de geoengenharia chamada “remoção de dióxido de carbono” ou CDR através da qual biliões de toneladas de carbono são de facto removidas da atmosfera, e armazenadas algures na Terra seja sob a forma de biochar ou talvez como matéria viva, chamada biomassa. Mas tal como é amplamente sabido, na realidade não existe nenhuma tecnologia assim, e a pesquisa para a desenvolver tem estado enrolada em controvérsia, conspiração inação governamental, representação falsa, e toda uma gama de outras inibições. O ponto principal é que estamos a basear a nossa segurança futura coletiva neste planeta em pura ficção científica. Se queremos sequestrar o CO2 e fazer uma diferença, temos que sequestrar algo que é… uma fração significativa das 35 biliões de toneladas por ano. E então o que é uma fração significativa de 35 biliões? Digamos 20 biliões de toneladas… 10 biliões de toneladas até, para começar. 10 biliões de toneladas por ano de sequestração de carbono. Não fazemos nada, neste planeta, a essa escala. Não produzimos comida a essa escala, não minamos de todo a essa escala, nós nem produzimos petróleo, carvão ou gás natural a essa escala. Minério de ferro está abaixo de 1 bilião de toneladas por ano. Como vamos inventar uma tecnologia do zero, uma tecnologia altamente complicada, para lidar com 10 biliões de toneladas por ano? NB: Diretor substituto do Centro Tyndall para a Investigação em Alterações Climáticas, o Prof. Kevin Anderson disse o seguinte numa entrevista recente: É também um ponto brilhante de se notar que quando estamos a desenvolver os nossos cenários de emissões, o nosso modo de pensar no futuro, virtualmente todo e cada um dos cenários de emissões que tem por objetivo cumprir as nossas obrigações perante as alterações climáticas, que assinámos internacionalmente, esta ideia de manter o aumento da temperatura média global abaixo dos 2°C, virtualmente todo o cenário de emissões que gerámos até agora, inclui geoengenharia. Assume automaticamente que funciona. Agora, tudo bem se isso acontecer em 1 ou 2 cenários, mas quase todos os cenários o tem. E então, aquilo que encontramos é que a geoengenharia apesar de ainda estar numa fase conceptual muito experimental estamos a assumir que funciona e estamos a embuti-la nos nossos cenários, e é a partir desses que vamos aconselhar os nossos legisladores. E então já tem um efeito muito pernicioso no influenciar daquilo que os legisladores, a sociedade civil, as empresas, e outras pessoas que não estão envolvidas na ciência, percebem sobre alterações climáticas. E se falares com a maioria dos legisladores, eles não estão conscientes de que na realidade, de todo o aconselhamento que recebem dos cientistas, já existe esta suposição de que estamos prestes a chupar o CO2 da atmosfera no futuro próximo. Isso já está a acontecer hoje. NB: Temos uma crise muito real e muito séria em mãos. Não podemos permitir que as emissões de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa continuem a subir. Temos que inverter a tendência, e rápido. Estamos presentemente no perigoso nível de 400 partes por milhão de dióxido de carbono, e a subir. Na Era pré-industrial, estávamos à volta das 280 partes por milhão. Para estarmos seguros, devíamos estar a apontar para reduzir a concentração abaixo das 320 ppm. Isto significa desenvolver um meio de remover as biliões de toneladas de gases de efeito estufa da atmosfera. Devíamos estar muito preocupados que o IPCC incluiu o uso de tecnologia de geoengenharia nos cenários futuros de emissões, e que a verdadeira tecnologia não existe presentemente e nem está a ser adequadamente pesquisada nem financiada.

Primeiramente publicado em Português em Projeções do IPCC São Ficção: Realidade é Muito Pior e traduzido do original Survivable IPCC projections based on science fiction – reality is far worse, publicado por Nick Breeze em Envisionation: Comunicating Climate a 27 de Fevereiro de 2015.

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Temperaturas em Fevereiro de 2016 seguem o cenário RCP 8.5 das projeções do IPCC

Temperatura e Fevereiro

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O Pico de Temperatura deste Mês Significa o Quê?

O Pico de Temperatura deste Mês Significa o Quê?

Steve Sherwood e Stefan Rahmstorf em The Conversation:

As temperaturas globais para fevereiro revelaram um pico preocupante e sem precedentes. Esteve 1,35℃ mais quente do que a média de fevereiro para o período de linha de base usual de 1951-1980, de acordo com dados da NASA.

Esta é a maior anomalia quente de qualquer mês desde que os registos começaram em 1880. Excede em muito os recordes batidos em 2014 e novamente em 2015 (o primeiro ano em que a marca de 1℃ foi ultrapassada).

No mesmo mês, a cobertura de gelo marinho do Ártico atingiu o seu valor mais baixo para fevereiro jamais registado. E a concentração de dióxido de carbono na atmosfera no ano passado aumentou mais de 3 partes por milhão, outro recorde.

O que é que se passa? Estamos diante de uma emergência climática?

Toca a acordar
Toca a acordar! Situação de emergência de aquecimento global com pico de temperatura de fevereiro

Desvio da média de 1951-1980 das temperaturas para fevereiro entre 1880 e 2016
Temperaturas de fevereiro de 1880 a 2016, a partir de dados da NASA GISS. Os valores são desvios do período base de 1951-1980. Stefan Rahmstorf
O El Niño e a Mudança Climática

Duas coisas que se estão a combinar para produzir o calor recorde: a tendência de aquecimento global que nos é bem conhecida causada pelas nossas emissões de gases de efeito estufa, e um El Niño no Pacífico tropical.

O registo mostra que o aquecimento da superfície global foi sempre sobreposto pela variabilidade climática natural. A maior causa dessa variabilidade é o ciclo natural entre as condições de El Niño e La Niña. O El Niño em 1998 bateu os recordes, mas agora temos um que parece ser ainda maior em algumas medidas.

O padrão de calor em fevereiro mostra assinaturas típicas tanto do aquecimento global a longo prazo como do El Niño. Este último é muito evidente nos trópicos.

Mais ao norte, o padrão é semelhante a outros fevereiros desde o ano 2000: um aquecimento particularmente forte no Ártico, Alasca, Canadá e no norte do continente Euro-Asiático. Outra característica notável é uma bolha fria no Atlântico Norte, que tem sido atribuída a um abrandamento na Corrente do Golfo.

O pico de aquecimento de Fevereiro trouxe-nos pelo menos 1,6℃ acima dos níveis pré-industriais das temperaturas médias globais. Isto significa que, pela primeira vez, ultrapassámos a meta aspiracional internacional de 1,5℃ acordada em dezembro, em Paris. Estamos a chegar desconfortavelmente perto de 2℃.

Felizmente, isto é temporário: o El Niño está a começar a diminuir.

Infelizmente, fizemos pouco quanto ao aquecimento subjacente. Se não for controlado, isso fará com que esses picos aconteçam mais e mais vezes, com um pico maior que 2℃ a estar talvez apenas a um par de décadas de distância.

Os gases de efeito estufa que aquecem lentamente a Terra continuam a aumentar em concentração. A média de 12 meses ultrapassou as 400 partes por milhão mais ou menos há um ano – o nível mais alto em pelo menos um milhão de anos. A média subiu ainda mais rápido em 2015 do que nos anos anteriores (provavelmente também devido ao El Niño, pois isso tende a trazer seca para muitas partes do mundo, o que significa que menos carbono é armazenado no crescimento de plantas).

Um lampejo de esperança é que as nossas emissões de dióxido de carbono dos combustíveis fósseis, pela primeira vez em décadas, pararam de aumentar. Esta tendência tem sido evidente ao longo dos dois últimos anos, principalmente devido a um declínio do uso do carvão na China, que anunciou recentemente o encerramento de cerca de 1.000 minas de carvão.

Temos subestimado o aquecimento global?

Será que o “pico” muda a nossa compreensão do aquecimento global? Ao pensar sobre a mudança climática, é importante adotar uma visão de longo prazo. Uma situação tipo La Niña predominante nos últimos anos não significou que o aquecimento global tinha “parado”, como algumas figuras públicas estavam (e provavelmente ainda estão) a reivindicar.

Da mesma forma, um pico quente devido a um grande evento El Niño – mesmo que surpreendentemente quente – não significa que o aquecimento global tenha sido subestimado. No longo prazo, a tendência de aquecimento global está muito bem de acordo com as previsões de longa data. Mas essas previsões, no entanto, pintam um retrato de um futuro muito quente se as emissões não forem reduzidas em breve.

A situação é semelhante à de uma doença grave como cancro: o paciente normalmente não fica ligeiramente pior a cada dia, mas tem semanas em que a família pensa que ele pode estar a recuperar, seguidas de dia terríveis de recaídas. Os médicos não mudam o seu diagnóstico de cada vez que isso acontece, porque eles sabem que isto faz tudo parte da doença.

Embora o corrente pico derivado do El-Niño seja temporário, vai durar tempo suficiente para ter algumas consequências graves. Por exemplo, um evento maciço de branqueamento de coral parece provável na Grande Barreira de Corais.

Aqui na Austrália temos vindo a bater recordes de calor nos últimos meses, incluindo 39 dias seguidos em Sydney acima de 26℃ (o dobro do recorde anterior). As notícias parecem estar centradas no papel do El Niño, mas o El Niño não explica por que os oceanos ao sul da Austrália, e no Ártico, estão em temperaturas altas recorde.

A outra metade da história é o aquecimento global. Isto está a impulsionar cada El Niño sucessivo, juntamente com todos os seus outros efeitos sobre as camadas de gelo e o nível do mar, o ecossistema global e eventos climáticos extremos.

Esta é a verdadeira emergência climática: está a ficar mais difícil, a cada ano que passa, para a humanidade evitar que as temperaturas subam acima de 2℃. Fevereiro devia lembrar-nos o quão urgente é a situação.

Este artigo foi primeiramente publicado em AquecimentoGlobal.info, um site destinado a agregar a mais recente ciência sobre as alterações climáticas e o consequente aquecimento global. Foi traduzido do original What Does This Month’s Temp Spike Mean? de Peter Sinclair, publicado no blogue Climate Denial Crock of the Week, a 16 de Março de 2016.

Aumento da Temperatura em 2015 – Kevin Trenberth

Aumento da Temperatura em 2015 – Kevin Trenberth

Sugerimos a leitura de “Aumento da Temperatura Recorde em 2015 – Kevin Trenberth” no site Aquecimento Global: A Mais Recente Ciência Climática

para o século 20 as temperaturas estão altas cerca de 0.9 graus Celsius, ou algo assim. Então, quando se fala de um salto de 0.2°C, 0.2 é 20 porcento do aumento total do século passado inteiro, e tudo isso aconteceu neste último ano (2015).

Kevin Trenberth, PhD, é investigador sénior no Centro Nacional para a Pesquisa Atmosférica no Colorado.

Peter Sinclair é um videógrafo especializado em questões sobre Alterações Climáticas e soluções de energias renováveis. O senhor Sinclair produz as séries de vídeo “This is Not Cool”, para Yale Climate Connections. Ele produziu mais do que 100 vídeos nas séries “Climate Denial Crock of the Week”, uma resposta cientificamente rigorosa e satiricamente afiada aos muitos pedaços de informação errónea na ciência climática, e desinformação, frequentemente encontradas na Internet – os quais o senhor Sinclair chama de “Bobos climáticos – algo que Rush Limbaugh pode dizer em 10 segundos mas demora uma hora a desempacotar por um cientista honesto”.

Transcrição do vídeo: Aumento Recorde da Temperatura em 2015 – Kevin Trenberth

Haviam vários registos de superfície derivados de diferentes organizações, da NASA, da NOAA, do Met Office do Reino Unido e assim, e todos eles dão a mesma história: 2015 está a revelar-se como o ano mais quente no registo, de longe. Está um par de décimos de grau Celsius acima de tudo o que temos visto antes, e isso é muito. As mudanças normais que temos visto, então, 2014 era anteriormente o mais quente do registo mas, sabem, estava alguns centésimos de grau mais quente do que o mais quente anterior, que foi 2010, e assim por diante, e normalmente… o aumento global da temperatura agora, estimamos que seja acima de 1 grau Celsius desde os tempos pré-industriais. Agora, dos tempos pré-industriais, talvez no final dos anos 1800 até, não temos registos tão fiáveis, e então a maioria dos registos são mais viáveis… digamos após… para o século 20, e para o século 20 as temperaturas estão altas cerca de 0.9 graus Celsius, ou algo assim. Então, quando se fala de um salto de 0.2°C, 0.2 é 20 porcento do aumento total do século passado inteiro, e tudo isso aconteceu neste último ano. As flutuações normais de ano para ano com o El Niño têm uma amplitude máxima de mais ou menos o mesmo, logo, qualquer coisa acima de 0.2°C é aquilo que consideramos significante, logo um aumento de 1 grau na temperatura é altamente significante, está bem fora do intervalo de ±0.2°C que são esperados na variabilidade natural. Irá descer um pouco outra vez mas, creio que está propensa a manter-se elevada neste novo nível e tipo flutuar à volta de um novo nível. Este é o modo como tem sido no passado e penso que é isso que podemos esperar.

Traduzido do original Kevin Trenberth on the 2015 Temperature Record, publicado por Peter Sinclair em Climate Denial Crock of the Week a 30 de Janeiro de 2016.

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O Telhado Está a Arder – Parece que Fevereiro de 2016 Esteve 1.5 a 1.7 C Acima das Médias de 1880

O Telhado Está a Arder – Parece que Fevereiro de 2016 Esteve 1.5 a 1.7 C Acima das Médias de 1880

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Antes de começarmos a explorar esta instância mais recente e mais extrema de uma longa série de temperaturas globais de quebrar recordes, devíamos ter um momento para creditar os nossos “amigos” negadores da mudança climática pelo que está a acontecer no Sistema Terra.

Durante décadas, uma coligação de interesses especiais em combustíveis fósseis, investidores de grandes negócios, grupos de reflexão relacionados, e a grande maioria do Partido Republicano, têm lutado estridentemente para evitarem uma acção eficaz na mitigação dos piores efeitos da mudança climática. Na sua louca missão, eles atacaram a ciência, demonizaram líderes, paralizaram o Congresso, mancaram o governo, apoiaram combustíveis fósseis destinados a falhar, impediram ou desmancharam regulamentação útil, tornaram o Supremo Tribunal numa arma contra as soluções de energias renováveis, e puseram abaixo indústrias que teriam ajudado a reduzir o dano.

Através destas ações, eles têm sido bem sucedidos na prevenção da mudança rápida e necessária de desistência da queima de combustíveis fósseis, travando uma liderança americana florescente em energias renováveis ​​e ao inundarem o mundo com o carvão, petróleo e gás de baixo custo, que são agora tão destrutivos para a estabilidade do Sistema Terra. Agora, parece que alguns dos impactos mais perigosos das alterações climáticas já estão garantidos. E assim, quando a história olha para trás e pergunta – por que fomos tão estúpidos? Podemos honestamente apontar os nossos dedos para aqueles ignorantes e dizer “aqui estavam os sumo sacerdotes infernais que sacrificaram um futuro assegurado e a segurança dos nossos filhos no altar de seu orgulho tolo.”

Piores Receios para o Aquecimento Global Realizados

Sabíamos que ia haver sarilho. Sabíamos que as emissões de gases de efeito estufa humanas tinham carregado o oceano global com calor. Sabíamos que um El Nino recorde iria explodir um grande bocado desse calor de volta para a atmosfera assim que começou a desvanecer. E sabíamos que mais recordes da temperatura global estavam a caminho no final de 2015 e início de 2016. Mas tenho que admitir que os primeiros indícios para fevereiro são simplesmente assombrosos.

Aquecimento Global Extremo - temperaturas

(O modelo GFS mostra temperaturas com médias de 1.01 C acima da já significativamente mais quente do que o normal linha de base de 1981-2010. Observações subsequentes a partir de fontes independentes confirmaram este pico dramático da temperatura para fevereiro. Aguardamos as observações da NASA, NOAA e JMA para uma confirmação final. Mas a tendência nos dados é surpreendentemente clara. O que estamos a ver são as temperaturas globais mais quentes, de longe, desde que os registos começaram. Note-se que as maiores anomalias de temperatura aparecem exatamente onde não as queremos – no Ártico. Fonte da imagem: GFS e MJ Ventrice).

Eric Holthaus e MJ Ventrice, na segunda-feira, foram os primeiros a dar o aviso de um pico extremo nas temperaturas tal como registado pela medição global por satélite. Seguiu-se uma série de relatos dos mídia. Mas foi só hoje que começámos realmente a ter uma visão clara do potencial de danos atmosféricos.

Nick Stokes, um cientista do clima aposentado e blogger em Moyhu, publicou uma análise dos dados preliminares recentemente libertados pela NCAR e o indicador está simplesmente elevado de modo absolutamente fora de série. De acordo com esta análise, as temperaturas de fevereiro podem ter estado tanto quanto 1,44 C mais quentes do que a linha de base da NASA de 1951-1980. Convertendo as diferenças a partir dos valores da década de 1880, se estas estimativas preliminares se confirmarem, iriam colocar os números do GISS nuns extremos 1,66 C mais quentes do que os níveis de 1880 para fevereiro. Se o GISS corre 0,1 C mais frio do que as conversões NCAR, como tem feito ao longo dos últimos meses, então o aumento de temperatura de 1880 a fevereiro de 2016 seria de cerca de 1,56 C. Ambos são saltos incrivelmente altos que deixam uma dica de que 2016 poderia vir a ser bastante mais quente do que até mesmo 2015.

É importante notar que grande parte destas temperaturas globais elevadas recorde estão centradas no Ártico – uma região que é muito sensível ao aquecimento e que tem o potencial de produzir uma série de feedbacks amplificadores perigosos. Assim, poderíamos muito bem caracterizar um fevereiro quente recorde iminente como um no qual muito do excesso de calor explodiu no Ártico. Por outras palavras, os gráficos da anomalia da temperatura global fazem parecer que o teto do mundo está em chamas. Isso não é literal. Grande parte do Ártico permanece abaixo de zero. Mas anomalias de 10 a 12 C acima da temperatura média para um mês inteiro em grandes regiões do Ártico é um assunto sério. Isso significa que grandes partes do Ártico não experienciaram nada que se aproxime de um verdadeiro inverno no Ártico este ano [Artigo em Português].

Parece que o Limiar de 1,5 C foi Quebrado na Medição Mensal e Podemos Estar a Olhar para 1,2 a 1,3 C+ Acima de 1880s para todo 2016

Colocando estes números em contexto, parece que podemos ter já ultrapassado o limiar de 1,5 C acima dos valores dos anos de 1880 na medição mensal em fevereiro. Isto está a entrar num campo de riscos elevados para a aceleração do derretimento do gelo marinho e da neve no Ártico, perda de albedo, descongelamento da permafrost e uma série de outros feedbacks relacionados amplificadores de um aquecimento do nosso mundo forçado por humanos. Um conjunto de mudanças que irão, provavelmente, adicionar à velocidade de um, já rápido de si, aquecimento baseado em combustíveis fósseis. Mas devemos ter muito claro que as diferenças mensais não são diferenças anuais, e que a medida anual para 2016 é menos provável de vir a atingir ou exceder a diferença de 1.5 C. É justo dizer, porém, que diferenças anuais de 1,5 C são iminentes e vão provavelmente aparecer dentro de 5 a 20 anos.

Se usarmos o El Nino de 1997-1998 como base, descobrimos que as temperaturas globais para esse evento atingiram um máximo de cerca de 1,1 C acima das médias da década de 1880 durante fevereiro. O ano, contudo, ficou em cerca de 0,85 C acima das médias de 1880. Usando uma análise semelhante de verso de guardanapo, e assumindo que 2016 irá continuar a ver as temperaturas de superfície do mar Equatorial a continuarem a arrefecer, podemos estar a olhar para 1,2 a 1,3 C acima da média de 1880 para este ano.

Previsao para El Nino - Anomalia da Temperatura

(O El Nino está a arrefecer. Mas continuará a arrastar-se até 2016? Os conjuntos do modelo do Climate Prediction Center CFSv2 [Centro de Previsão Climática] parecem pensar que sim. A execução mais recente mostra a corrente El Nino a refortalecer-se no Outono de 2016. Tal evento tenderia a empurrar as temperaturas globais anuais para mais perto de 1,5 C acima do limiar da década de 1880. Também estabeleceria o potencial externo para mais um ano quente recorde em 2017. É importante notar que o consenso da NOAA ainda é o de um ENSO Neutro a enfraquecer as condições de La Niña pelo Outono. Fonte da imagem: Centro de Previsão do Clima da NOAA).

A NOAA está presentemente a prever que o El Nino fará a transição para ENSO Neutro ou para uma la Nina fraca, pelo final do ano. Contudo, algumas execuções de modelos mostram que o El Nino nunca chega a terminar realmente para 2016. Em vez disso, estes modelos prevêm que um El Nino fraco a moderado venha no Outono. Em 1998, um forte La Nina começou a formar-se, o que teria ajudado a conter as temperaturas atmosféricas no final do ano. A previsão de 2016, contudo, não parece indicar tão grande assistência no arrefecimento atmosférico proveniente do sistema oceânico global. Então, as médias anuais no fim de 2016 poderão empurrar mais para perto de 1,3 C (ou um pouco mais) acima dos níveis da década de 1880.

Tivemos Este Aquecimento no Sistema Já Há Algum Tempo, Apenas Estava a Esconder-se nos Oceanos

Outro pedaço do contexto sobre o qual devíamos ser muito claros, é que o Sistema Terra tem estado a viver com o calor atmosférico que estamos a ver agora há algum tempo. Os oceanos iniciaram uma acumulação muito rápida de calor devido ao forçamento das emissões de gases de efeito estufa durante os anos 2000. Uma taxa de acumulação de calor nas águas do mundo que tem acelerado até ao presente ano. Este excesso de calor já impactou o sistema climático ao acelerar a desestabilização dos glaciares na zona basal na Gronelândia e na Antártida. E também contribuiu para novas perdas recorde do gelo marinho global e é uma fonte provável de relatórios das zonas de plataforma continental do mundo nas quais têm sido observadas pequenas, mas preocupantes, instabilidades nos clatratos.

Acumulação de calor pelo oceano global

(A acumulação de calor no oceano global tem estado a subir em rampa desde o final dos anos 1990, com 50 por cento da acumulação total de calor a ocorrer nos 18 anos entre 1997 e 2015. Uma vez que mais de 90 por cento do forçamento de calor pelos gases de efeito estufa acaba no sistema do oceano global, esta medida em particular é provavelmente a imagem mais precisa de um mundo em rápido aquecimento. Uma tão rápida acumulação de calor nos oceanos do mundo garantiu uma eventual resposta da atmosfera. A verdadeira questão agora é – quão rapidamente e quão extensa? Fonte da imagem: Nature).

Mas elevar o aquecimento atmosférico terá inúmeros impactos adicionais. Irá colocar pressão sobre as regiões de superfície dos glaciares globais, adicionando ao aumento repentino na pressão de fusão basal que já vimos. Irá amplificar ainda mais o ciclo hidrológico – aumentando as taxas de evaporação e precipitação em todo o mundo e amplificando secas extremas, incêndios e inundações. Vai aumentar as temperaturas de superfície globais de pico, aumentando assim a incidência de eventos de baixas em massa por vagas de calor. Irá fornecer mais energia de calor latente para as tempestades, continuando a empurrar para cima o limiar de intensidade de pico destes eventos. E vai ajudar a acelerar o ritmo das mudanças regionais nos sistemas climáticos tais como a instabilidade do tempo no Atlântico Norte e aumentar a tendência de seca nos EUA (especialmente o Sudoeste dos EUA).

Entrando na Zona Perigosa da Mudança Climatica

O intervalo de 1-2 C acima das temperaturas da década de 1880 em que estamos agora a entrar é um em que as mudanças climáticas perigosas tenderão a crescer de forma mais rápida e aparente. Tal calor atmosférico não tem sido experienciado na Terra em pelo menos 150.000 anos, e o mundo de então era um lugar muito diferente daquilo a que os seres humanos foram acostumados no século 20. Contudo, a velocidade a que as temperaturas globais estão a subir é muito mais rápida do que alguma vez foi visto durante qualquer período interglacial para os últimos 3 milhões de anos, e é provavelmente ainda mais rápido do que o aquecimento observado durante eventos de extinção por efeito de estufa como o MTPE e o Permiano. Esta velocidade de aquecimento irá quase certamente ter efeitos adicionados para além do contexto do paleoclima.

Anomalia dos Graus-Dia no Artico

(Quem olha para o gráfico de anomalia da temperatura no topo deste post pode ver que uma quantidade desproporcional da anomalia da temperatura global está a aparecer no Ártico. Mas a região do Extremo Norte acima da linha de Latitude de 80 graus está entre as regiões que experimentam anomalias do pico global. Lá, graus-dia abaixo de zero estão nos níveis mais baixos já registados – atingindo agora uma anomalia de -800 no registo do Ártico. Em termos simples – quanto menos graus-dia abaixo de zero o Ártico experiencia, o mais próximo estará de derreter. Fonte da imagem: CIRES / NOAA).

Um último ponto a deixar claro e que vale a pena repetir. Nós, ao darmos ouvidos aos negadores da mudança climática e deixarmos que entupam as obras políticas e económicas, provavelmente já trancámos no sistema alguns dos efeitos negativos das alterações climáticas, que poderiam ter sido evitados. O tempo para darmos ouvidos a esses tolos acabou. O tempo para arrastar os pés e andar com meias-medidas está agora a chegar ao fim. Precisamos de uma resposta muito rápida. Uma resposta que, neste momento, ainda está a ser adiada pela indústria de combustíveis fósseis e os negadores da mudança climática que incitaram a sua beligerância.

Links:

O Velho Normal Já Era

NASA GISS

Quente Quente Quente

Michael J. Ventrice

Ártico Sem Inverno em 2016 [Traduzido em Português]

Grande Salto nas Medições da Temperatura à Superfície e pelo Satélite

Centro de Previsão Climática da NOAA

Captação de Calor pelo Oceano Global na Era Industrial Duplica em Décadas Recentes

CIRES / NOAA

Governadores Republicanos Processam para Pararem o Plano de Energia Limpa

Traduzido do original The Roof is On Fire — Looks like February of 2016 Was 1.5 to 1.7 C Above 1880s Averages, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 3 de Março de 2016.

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Os 2 C Aproximam-se Mais Depressa do que Temíamos – Picos de Metano Atmosférico de 3096 Partes por Bilião

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É essencial que os políticos comecem a considerar seriamente a possibilidade de um feedback substancial de carbono da permafrost no aquecimento global. Se não o fizerem, suspeito que em pouco tempo vamos todos estar a olhar para o limite de 2°C pelo espelho retrovisor.

Robert Max Holmes

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Desvendar o puzzle do aquecimento global é simples à primeira vista, mas complexo assim que se esgravata a superfície.

Sabemos que a queima de combustíveis fósseis, a atividade de mineração de carvão, o fracking para o gás, e a perfuração de petróleo, resultam todos em emissões de gases com efeito de estufa perigosos. Sabemos que a grande maioria destes gases de aquecimento de estufa são provenientes de fontes de combustíveis fósseis. Sabemos que, agora, a queima, a mineração, o fracking e a perfuração têm empurrado o CO2 atmosférico acima de 405 partes por milhão e a concentração global de todos os gases equivalentes a CO2 a umas surpreendentes 485 partes por milhão de CO2e (níveis não vistos em pelo menos 15 milhões de anos ). E sabemos que o calor re-irradiado por esses gases aqueceu o mundo em cerca de 1 C acima dos níveis de 1880 – forçando os padrões climáticos a mudarem, os mares a subirem, a saúde do oceano a declinar, e a desencadear uma onda de mortes em massa no mundo animal enquanto aumentando o risco a curto prazo de fome, propagação de doenças tropicais, e deslocamentos em massa no mundo humano.

Forçamento Radiativo

(O calor adicionado à atmosfera terrestre por gases emitidos pelos combustíveis fósseis como CO2 e Metano é medido em watts por metro quadrado. Um critério conhecido como forçamento radiativo [RF]. No gráfico acima, pelo IPCC, podemos ver os níveis estimados de forçamento radiativo de cada gás com efeito de estufa e o forçamento total líquido de calor pelos humanos sobre a atmosfera da Terra desde 2011. É uma medida que poderá precisar de começar a adicionar também o RF de gases com efeito de estufa de feedback à medida que o século 21 avança. Fonte da imagem: RealClimate).

Sabemos muitos dos nomes desses outros gases – metano, óxido nitroso e clorofluorocarbonetos. E alguns dos outros – como o hexafluoreto de enxofre – que muitos de nós ainda não ouvimos falar. Mas o grande nome, o agente de aquecimento primário, é o dióxido de carbono – por si próprio responsável, atualmente, pela maioria do forçamento de calor global. Um gás tão importante para o aquecimento a longo prazo que a NASA o chamou de ‘o termostato que controla a temperatura da Terra.’

Tudo isto é bastante simples e direto. Mas é quando começamos a olhar para o que são chamados de feedbacks amplificadores [NT: mecanismos de auto-reforço positivo] – as respostas da Sensibilidade do Sistema Terrestre ao aquecimento forçado por humanos – que as coisas começam a ficar mesmo perigosas. E embrulhado na equação de Sensibilidade do Sistema Terrestre está o metano – um gás de efeito estufa com a capacidade de influenciar fortemente as temperaturas globais em prazos bastante curtos.

Picos de Metano de Mais de 3.000 Partes por Bilhão

A 20 de Fevereiro, durante cerca de 12 horas, a medição NOAA METOP registou um grande pico de metano atmosférico alcançando 3.096 partes por bilhão a 20.000 pés de altitude. Esta foi a primeira vez que qualquer medição havia registado um pico de metano tão elevado e a primeira vez que qualquer medição havia ultrapassado o limiar das 3.000 partes por bilhão. Para contexto, há apenas dois anos atrás, um pico de metano alcançando as 2.660 partes por bilhão teria sido significante. Agora, estamos a obter leituras de picos que são 400 partes por bilhão superiores ao limite máximo anterior.

Niveis de metano pelo METOP - fevereiro 2016

(O METOP mostrou um pico recorde de 3.096 partes por bilhão de metano atmosférico a 20 de Fevereiro de 2016. Até agora, este foi o maior aumento deste género já registado nas medições da NOAA. Um que excedeu de longe a média atmosférica global de cerca de 1.830 partes por bilhão. Fonte da imagem: NOAA / METOP).

É um sinal muito agourento – especialmente quando se considera o facto de que as médias de metano atmosférico globais estão na faixa de 1830 partes por bilhão. O grande aumento recente foi mais elevado em cerca de 1170 partes por bilhão. Por outras palavras – algo muito extraordinário. É prova de que as fontes de metano do mundo estão a ficar mais vigorosas nas suas emissões. E quando se considera o facto de que o metano – numa comparação molécula por molécula com CO2 – retém cerca de 80 vezes mais calor numa escala de tempo de décadas, grandes adições de metano no topo de um forçamento por CO2 já perigoso é certamente motivo de alguma preocupação. Uma questão que pode acelerar ainda mais o já rápido ritmo de aquecimento forçado pelos humanos de tal modo que ficamos em risco de atingir os limiares de 1,5 C e 2 C, mais cedo do que o esperado. Resultados que devíamos estar urgentemente a trabalhar para evitar – cortando as emissões de base humana tão rapidamente quanto possível no tempo.

Os Suspeitos do Costume – Atividade Baseada em Combustível Fóssil

Talvez ainda mais preocupante seja o facto de que realmente não sabemos exatamente de onde este pico significativo de metano está a vir.

Temos, contudo, uma longa lista de suspeitos do costume. O primeiro, é claro, seria a partir de um qualquer número de fontes muito grandes e perigosas de emissões de combustíveis fósseis. A China, com suas minas maciças de carvão que arrotam metano, infra-estruturas de gás, e instalações de queima de carvão sujo, seria o principal suspeito. A Mongólia, onde instalações de carvão e gás, que alastram igualmente, operam, é outro ponto quente provável. A Rússia – com os seus vastos campos de petróleo e gás com fugas. O Médio Oriente – que está engasgado com infra-estrutura de combustíveis fósseis. A Europa – onde muitos dos oleodutos da Rússia terminam e onde muitas nações queimam um carvão castanho de elevado metano. E os Estados Unidos – onde a prática geologicamente destrutiva do fracking tem agora também recentemente aumentado grandemente as emissões de metano.

Suspeitos Não Usuais – Permafrost e Clatratos Aquecidos pelas Emissões de Combustíveis Fósseis

Olhando para a resolução muito baixa do gráfico METOP acima, encontramos uma série de pontos quentes de metano por todo o mundo. E muitos desses pontos quentes coincidem com a nossa lista de suspeitos do costume. Mas outros estão bem fora da faixa que normalmente seria de esperar. Lá bem em cima no norte, sobre a tundra e o Oceano Ártico, onde já existem algumas instalações grandes de queima de combustíveis fósseis ou de extração. Lá, um pouco ironicamente, grandes pilhas de permafrost, que se espalham ao longo de milhões de milhas quadradas e por vezes tão espessas quanto duas milhas, estão a descongelar devido ao forçamento de calor pelos gases de efeito estufa da queima de combustíveis fósseis, muitas vezes acontecendo a centenas ou milhares de milhas de distância. Esta permafrost a descongelar está preenchida com material orgânico. E quando libertado da sua prisão de gelo, fica exposta aos elementos e micróbios do mundo. Estas forças, em seguida, começam a trabalhar, tornando o carbono orgânico nessa permafrost em dióxido de carbono e metano.

Isto é bastante má notícia. No total, mais de 1.300 bilhões de toneladas de carbono estão trancadas em solos da permafrost. E as emissões de carbono de permafrost fazem um já mau forçamento de calor proveniente da queima de combustíveis fósseis ainda pior.

Níveis de metano em Barrow, Alasca

(Os níveis de metano atmosférico tal como registados por várias estações de relatórios e monitores globais têm vindo a aumentar mais rapidamente nos últimos anos. No Ártico, as leituras atmosféricas têm tendido a manter-se acima da média global – uma indicação de que as emissões locais estão a gerar uma sobrecarga para a região. Fonte da imagem: NOAA ESRL).

Como se todas as emissões humanas e as potenciais emissões da permafrost não fossem já suficientemente más, temos mais uma grande fonte de carbono no Ártico a considerar – hidratos de metano. Uma potencial fonte de libertação de metano controversa, certamente. Mas uma muito grande, que seria negligente ignorarmos. Devido ao facto de que o Ártico se manteve, em geral, muito frio nos últimos 3 milhões de anos de longas eras glaciares e breves interglaciais, este reservatório maciço de carbono tem tido oportunidade de se acumular nas águas relativamente rasas, que agora aquecem rapidamente, do oceano Ártico, e até sob grandes secções da permafrost que agora descongela. Muito deste carbono está sob a forma congelada de gelo-metano, chamado hidrato. E à medida que o Oceano Ártico aquece e o gelo do mar recua para expor oceano azul ao aquecimento dos raios do sol pela primeira vez em centenas de milhares de anos, há uma preocupação entre alguns cientistas de que uma quantidade não insignificante desse metano congelado submerso irá libertar-se , passar os limites da interface oceano-atmosfera ou da permafrost que descongela, e adicionar mais forçamento de calor à atmosfera global. O mar raso da Plataforma Continental da Sibéria foi identificado por alguns como contendo tanto quanto 500 bilhões de toneladas de carbono na forma de metano congelado. E um aquecimento da Terra alimentado a combustíveis fósseis poderá estar agora mesmo a arriscar erupções, a um nível de um feedback amplificador, a partir deste grande reservatório de clatratos juntamente com uma série de outros reservatórios muito grandes espalhados por toda a bacia do Oceano Ártico e em todo o sistema oceânico global.

Uma Imagem Mais Clara? Ou Uma Muito Mais Complexa?

Então qual, de entre os vários suspeitos – usuais e incomuns – pode ser responsável pelo pico recorde de metano que aparece agora na medição da METOP?

Antes de tentarmos responder a esta pergunta, vamos puxar outro gráfico de metano – este do Observatório Copernicus:

Leituras Globais de Metano por Copernicus

(O gráfico de metano de Copenicus de 25 de fevereiro, que faz o rastreamento das leituras de metano à superfície, dá-nos uma indicação de maior resolução das leituras de metano à superfície do que a medida NOAA METOP. Esta segunda medição proporciona alguma confirmação de um sobrecarregamento de metano no Ártico, mesmo quando fontes de picos de emissões humanas se tornam mais evidentes. Picos ominosos também vêm aparentemente de incêndios florestais nos trópicos e de regiões no Ártico perto de Yamal, Rússia, Escandinávia do Norte, e os mares Barents e Kara. Fonte da imagem: O Observatório Copernicus).

Aqui podemos ver a variação nas leituras de metano de superfície de acordo com a Copernicus. Uma imagem de maior resolução que pode oferecer uma melhor ideia da localização do ponto-fonte dos picos diários globais de metano. Aqui vemos que as principais fontes de metano são predominantemente a China, Rússia, Médio Oriente, Europa, Estados Unidos, Índia, Indonésia, Incêndios em África e na Amazônia, e, por fim, o Ártico.

Embora a medição Copernicus não mostre o mesmo nível de sobrecarrega no Ártico como aquele que tende a aparecer na medição METOP, é uma confirmação de que algo no ambiente perto do Ártico está a gerar picos locais acima das 1940 partes por bilhão para grandes regiões desta zona sensível.

A medição pelo Copernicus, como mencionado acima, também mostra que os picos humanos são bastante intensos, mantendo-se como a fonte dominante de emissões de metano globalmente, apesar de uma contínua sobrecarga perturbadora no Ártico. Picos em África, na Amazónia, e Indonésia também indicam que as florestas em declínio e os incêndios relacionados nestas zonas tropicais estão também, provavelmente, a proporcionar um feedback amplificador às emissões humanas em geral.

Dados os picos deste mês e a disposição geral das leituras de metano de superfície ao redor do mundo, parece que a grande emissão de metano de base humana está a ser reforçada por feedbacks das emissões locais de reservas de carbono tanto nos trópicos como no Ártico. Este sinal de reforço, embora um pouco menor do que o sinal relacionado com os combustíveis fósseis em algumas medições, é preocupante e sugere que o aviso de Robert Max Holmes no iníco deste post pode ser por demais relevante. Pois os feedbacks do Sistema Terra às enormes e irresponsáveis emissões de combustíveis fósseis ​​parecem já estar a começar a complicar a nossa imagem de uma Terra em aquecimento.

Links:

CO2: O Termostato que Controla a Temperatura da Terra

Pico Ominoso de Metano no Ártico Continua

Pico de Metano Enorme Vindo de Fracking nos EUA

Libertação de Metano da Permafrost Pode Desencadear Aquecimento Global Perigoso

Preocupação com a Libertação Catastrófica de Metano

A4R Rastreamento Global de Metano

O Observatório Copernicus

NOAA ESRL

RealClimate

NOAA / METOP

Gorjeta para Griffin

Traduzido do original 2 C Coming On Faster Than We Feared — Atmospheric Methane Spikes to Record 3096 Parts Per Billion, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 26 de Fevereiro de 2016.

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